Haverá sempre quem opte por destacar o jovem com o cartaz “policia bom é polícia morto”, ou as pilhagens e vandalismo que invadiram os protestos anti-racistas nos EUA, ou a indignação perante as aglomerações de pessoas em tempos de Covid. Haverá sempre quem queira traçar equivalências morais ou recordar os cidadãos negros “que se estão tão mal aqui no país que os ‘acolheu’ porque é que não voltam para os países de origem” ou que se indignem que essas pessoas não estejam profundamente agradecidas de cá viverem deliberadamente ignorando que esses mesmos cidadãos são descendentes de povos que foram escravizados e colonizados, que participaram em guerras pela libertação dos seus países, guerras essas que não escolheram combater. Haverá sempre quem repudie a morte de George Floyd mas… ou quem afirme, como é tão comum ouvir, “não sou racista mas…”.

Há sempre um “mas” e geralmente quem o afirma pretende sobretudo enfatizar a mensagem que segue depois, nunca destacar o disclaimer de intenções, tranquilizador da própria consciência, que antecede a frase. Haverá sempre quem decida, convenientemente, ignorar que para cada acto de vandalismo ou mensagem despropositada, há milhares de pessoas que se manifestam pacificamente e que têm uma mensagem para transmitir. Haverá sempre quem se demonstre incapaz de sair da sua zona de conforto, para olhar para a realidade do país e da nossa sociedade para lá do próprio umbigo.

Haverá sempre ruído, muito ruído nas redes sociais, e quem deliberadamente concentre toda a sua energia sempre no acessório e nunca no essencial. Queremos falar de violência policial, eu respondo-te com o vandalismo, queremos falar de George Floyd, eu respondo-te com todos os outros crimes de ódio que ocorreram na história da humanidade, queremos falar sobre o Black lives matter, eu respondo-te com o All lives matter, queremos falar sobre o racismo, eu respondo-te com o “Covid”.

Já todos reconhecemos a estratégia: recusar e abafar o debate sobre o que de facto está em cima da mesa: o racismo sistémico e entranhado, uma realidade sistematicamente silenciada por todo o Mundo, inclusive em Portugal.

O que esta atitude generalizada demonstra é, não só, uma total incapacidade de nos colocarmos na pele do outro, como o pavor de abrir a caixa de pandora, de nos confrontarmos com as nossas falhas e com o flagelo do racismo, com tudo o que esse debate acarreta, nomeadamente o quebrar de vários mitos que se foram instalando no nosso imaginário coletivo: a excecionalidade do colonialismo português, a nossa “excelente” capacidade de acolhimento e integração, as nossas “eximias” políticas de integração, e a discussão sobre diferentes visões históricas, experiências e memórias que coexistem no nosso tecido social.

Para estes, esse debate é um jogo de soma-zero: não é possível construir uma identidade verdadeiramente inclusiva e plural que abra a discussão e ande para a frente.

É, portanto, sempre mais cómodo colocar a questão no plano do radicalismo da esquerda revisionista e, sobre essa capa, silenciar as vozes de todos os que se manifestaram em vários pontos do globo. É sempre mais cómodo colocar a questão no plano do grande combate político em que nenhuma causa ou fenómeno social importa a menos que sirva para marcar pontos contra o adversário político/ideológico, ou, como destacou já Fernanda Câncio neste artigo, é sempre mais fácil sacudir a água do capote e concluir que “isso acontece lá longe, aqui não há nada disso”.

Pois eu, que vivi alguns anos nos EUA, arrisco a dizer que cá, no que diz respeito ao debate da diversidade e representatividade, de uma certa forma, estamos pior. Passo a explicar: se de alguma forma Portugal é de facto um oásis de paz num Mundo cada vez mais turbulento e radicalizado, não nos iludamos. Não somos os EUA, é verdade, não temos nem a dimensão de diversidade étnico-racial que caracteriza a sociedade norte-americana, nem a polarização extremada dos americanos. Não temos o Ku Klux Klan, nem o supremacismo branco ou alt-right xenófoba que existe nos EUA. Os movimentos neo-nazis ou de extrema-direita têm pouca expressão na sociedade portuguesa e isso é de louvar. Mas embora felizmente não tenhamos os extremos, a verdade é que também não temos Obamas, Oprahs Winfreys e Trevor Noahs (para além de Beyoncés, Morgan Freemans e tantos outros). Não temos um único negro num lugar de destaque, para o qual os jovens negros deste país possam olhar com esperança e inspiração. Limitamo-nos a oferecer trabalhos nas obras, casas por limpar ou crianças para cuidar.

Obamas, Oprahs e Trevors Noahs, não servem apenas como role-models para jovens negros para que se possam imaginar e projetar na sociedade onde estão, mas também como exemplos para todos aqueles que querem falar sobre o racismo e não se reveem no discurso divisivo, hostil e acusatório de segmentos da esquerda ou no discurso negacionista de segmentos da direita.

Não temos os enormes fracassos, mas também não temos os enormes sucessos. Não temos a dimensão dos problemas, mas também não progredimos nas soluções. E talvez por isso mesmo não permitimos verdadeiramente o debate que é tão necessário para que haja progresso social e coesão inter-racial.

Não oferecemos igualdade de oportunidades, nem procuramos corrigir desigualdades estruturais que atravessam gerações que sistematicamente bloqueiam no elevador social. Mas também não queremos perceber porquê, nem onde está o bloqueio ou como o superar. Não procuramos conhecer verdadeiramente, com a recolha de dados estatísticos, a real condição das nossas comunidades, tão essencial para a procura efetiva de soluções. Quando se propõe a introdução de quotas étnico-raciais nos vários sectores ou a construção de memoriais, museus ou espaços de reflexão histórica, cai o carmo e a trindade. Então eu pergunto: o que estamos, realmente, dispostos a fazer?