André Ventura precisa desesperadamente da guerra identitária para sobreviver politicamente. Esse seu desespero foi notório durante o último debate com Miguel Sousa Tavares sobre “o Caso Marega”: da discussão do caso de racismo grotesco que ocorreu no Estádio de Guimarães, foi um passo até concluir que “as minorias não pagam impostos”. À falta de argumentos repetia freneticamente: “as maiorias que cá estão para pagarem impostos vs as coitadinhas das minorias”.

A chave de leitura, com que pretende enganar os portugueses, é muito simples: de um lado está a classe trabalhadora “esquecida” que contribui para as contas do Estado, do outro estão as minorias marginais, parasitárias, que vivem à custa de todos os Portugueses. Acontece que nessas “minorias” cabem negros, ciganos, judeus, muçulmanos, imigrantes de todas as nacionalidades – que não só pagam impostos como contribuem mais para o Estado do que dele beneficiam como revelam os dados mais recentes do Observatório das Migrações.

Com o argumento de que fala pelo “cidadão comum”, André Ventura, mente deliberadamente apelando ao sentimento mais primário e ignorante que pode existir entre os seus 6% de eleitorado. A técnica de debate é conhecida: desviar a discussão para questões laterais, procurando equivalências morais, de forma a não permitir o debate da questão em si. Admitir qualquer hipótese de racismo está fora de questão pois tal implicaria abdicar do seu papel de fiel guardião das “Maiorias que estão cá para pagar impostos.”

Mas este episódio suscitou-me, sobretudo, duas reflexões distintas:

A primeira diz respeito ao populismo das ‘fake news’: Só se combate a desinformação com a reposição da verdade. Mas não é possível fazê-lo sem o diagnóstico rigoroso da realidade das várias comunidades: quem são, quantos são e quais os níveis de desigualdade. A recolha de dados étnico-raciais é não só essencial no combate ao racismo como no combate às fake news e à disseminação de mentiras. Sem qualquer informação estatística cada um pode dizer o que bem entender.

A segunda prende-se com a ideia recorrentemente difundida, por vários opinion-makers, que o debate identitário é um instrumento fabricado pela  “new-left’’ que vê as minorias como os novos oprimidos do séc. XXI. Segundo esta visão, é esta política de identidades, das ‘micro-causas’, da nova esquerda identitária, que tribaliza e polariza a sociedade, que vê racismo em tudo e que importa de outros países ‘problemas que não existem’.

Mas o problema reside ai:  A ‘racialização’ do debate surge no plano político porque ela já acontece no plano da sociedade. O debate identitário não é uma mera fabricação dos extremos, ele reflecte uma realidade de conflitos e tensões sociais latentes que urge reconhecer e enfrentar. Este debate surge, em primeiro lugar, de organizações da sociedade civil, de movimentos grassroots dos bairros periféricos, do activismo pela igualdade e contra a discriminação. A diferença é que, à semelhança de outros países mas com décadas de atraso, novos atores políticos trouxeram o debate para a agenda mediática e para o espaço público.

Sejamos claros: nem tudo é racismo e nem todas as situações devem ser vistas à luz do preconceito racial e da cor da pele mas isso não quer dizer que o racismo não exista. Queiramos ou não, há um segmento da população que sofre actos de racismo e de preconceito recorrentes que extravasam o hooliganismo dos campos de futebol. E apesar de não termos dados étnico-raciais, alguns números são conhecidos e falam por si: a sobre-representação de afrodescendentes em trabalhos precários e pouco qualificados; as taxas de desemprego; os níveis de encarceramentos muito superiores aos da população maioritária; as taxas de reprovação e baixos níveis de escolaridade; para além de uma quase total ausência de representatividade de afrodescendentes e outras minorias em lugares de topo e sectores de destaque. E são só estes números e esta realidade que nos deveria preocupar.

A resposta ao racismo não pode ser só atacar a visão ‘identitária’ ou apregoar, como tem sido recorrente, discursos abstractos sobre os valores universais da dignidade da pessoa humana – que rejeita o conceito de raça e cor da pele — por oposição ao debate identitário. Soa bem e faz sentido se vivêssemos na sociedade ideal, mas as políticas têm de responder à realidade concreta, não a fantasias que alimentamos de uma sociedade utópica que não existe.

Só defende isso quem nunca teve de pensar sobre se a sua cor de pele ou identidade pode estar na origem do preconceito. Ninguém quer ser reduzido a uma categorização racial ou a um rótulo de branco, negro, asiático, judeu, muçulmano ou católico. Quase todos almejamos viver numa sociedade pós-racial, em que existe plena integração de todas as minorias étnico-raciais, e efectiva igualdade de oportunidades e de mobilidade social. Mas essa não é ainda a nossa realidade e não é abafando o debate identitário que as tensões desaparecem.

Todo o tempo que se perde em intermináveis discussões sobre semântica e o conceito de ‘raça’, se Portugal é ou não um país racista, se as minorias são os novos oprimidos, é tempo que não se usa para debater soluções concretas para este problema social. Insistir nesse discurso é recusar o debate e deixá-lo à deriva do aproveitamento político e do discurso radical.

PS: o programa Prós e Contras da passada segunda-feira, sobre o Racismo, ilustra mais uma vez o paternalismo com que são abordadas estas questões nos média em Portugal. A diversidade étnico-racial da sociedade Portuguesa ficou apenas visível na audiência e mais uma vez abafada na curadoria do painel de 6 convidados (apenas uma era negra/de uma minoria). Como é que se pode discutir com seriedade o racismo se sistematicamente preterimos e secundarizamos as vozes daqueles que sofrem na pele as consequências do que se pretende discutir?