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Fogo de Pedrógão Grande

«Familismo amoral» /premium

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Um «país desonesto» é um país «familista e amoral»: mais do que o próprio indivíduo, é a família o agente «amoral» das decisões perante um complexo de factores que escapa em maioria ao seu controlo.

Num recente artigo João Miguel Tavares (JMT) foi quem reagiu com mais vigor ao comportamento ignominioso de algumas famílias de Pedrógão Grande que se aproveitaram dos incêndios florestais do Verão passado para obter financiamentos públicos aos quais não tinham direito a fim de reconstruir casas há muito abandonadas! O autor do artigo mostra também como o presidente da Câmara correu em defesa das famílias prevaricadoras, mergulhando numa dessas «conspirações do silêncio» que se formam sempre nos meios pequenos, mas não revelou que esse novo presidente eleito pelo PS nas últimas eleições autárquicas era, nem mais nem menos, a mesma pessoa que o anterior presidente eleito pelo PSD… Teríamos ficado logo a saber como funcionam politicamente estas micro-sociedades!

Em contrapartida, JMT não se limitou a denunciar as famílias em questão e o eterno presidente da Câmara! Apropriadamente, comparou aquele tipo de manhas delituosas ali praticadas à custa do infortúnio alheio ao comportamento colectivo da quadrilha que, no tempo de Sócrates, assaltou a banca e as grandes empresas portuguesas, levando o país às dívidas com que continuamos a viver.

JMT concluiu tristemente que estes dois indignos comportamentos paralelos «dizem mais sobre Portugal do que uma estante inteira de livros de Sociologia, História e Ciência Política»! Não irei ao ponto de proclamar, como ele, que aqueles factos explicam a «sensação angustiante de estarmos sempre a perder o comboio do desenvolvimento». Em compensação, percebo a ideia que ele procura exprimir e posso assegurar os leitores que as estantes das ciências sociais são capazes de fornecer bastantes elementos para compreender aquilo a que ele chama, na boa tradição crítica nacional, «o fracasso do país» e que se pode designar, academicamente, como «path-dependence», ou seja, algo como: «A dependência das escolhas feitas no passado é extremamente difícil de reverter».

Estou a pensar em especial num complexo altamente constrangedor de atitudes e comportamentos predominantes entre as populações rurais da maior parte da Europa do sul, especialmente nos países católicos e sem exclusão das suas elites, ao qual foi dada pelo cientista político Edward Banfield a designação de «familismo amoral» (The moral basis of a backward society, 1955). A «sociedade atrasada» em questão era uma localidade do sul de Itália nos anos ’50 do século XX. As expressões de Banfield eram suficientemente pouco lisonjeiras, como aliás o título do artigo de JMT: «este país não é para gente honesta», para haverem suscitado um longo debate que nunca foi ultrapassado.

Este não é o espaço para uma exposição académica que, aliás, já fiz com bases estatísticas comparativas (Dimensões da cidadania, 2014), em particular num capítulo cujo título nomeia uma boa parte das grandes questões em causa: «Despotismo de estado e sociedade civil real em Portugal: distância ao poder, comunicação política e familismo amoral». Segundo o princípio geral da teoria da «path-dependence», tanto se pode começar pelo princípio como pelo fim: JMT partiu do último para alcançar o primeiro.

Um «país desonesto» é um país «familista e amoral»: mais do que o próprio indivíduo, é a família o agente «amoral» das decisões perante um complexo de factores que escapa em maioria ao seu controlo – mesmo à família do DDT, imagine-se às famílias de menos recursos… Pode-se hesitar entre grandes razões e pequenos motivos mas todos eles deixam marcas, tendencialmente irreversíveis, como num jogo de xadrez. Um deles é esse «despotismo de Estado» que Tocqueville descobriu na Europa quando visitou a América em meados do século XIX e que tanto pode começar por ser a causa desse «familismo sem moral» como tornar-se uma sua consequência deste.

Em todo o caso, o analfabetismo e a emigração – dois dos traços mais distintivos da sociedade portuguesa até hoje – são a causa de uma enorme «distância ao poder», que foi possível medir estatisticamente em comparação com outros países, por parte das famílias desmunidas de trunfos perante as famílias que compõem as oligarquias dominantes. Tipicamente, a «emigração patológica» que caracteriza determinados países marítimos começou por funcionar, em Portugal, como um dos motores das hoje discutidas «descobertas» para se transformar na grande válvula de escape para a falta de desenvolvimento interno,

Em suma, a emigração é o mesmo que «votar com os pés», ou seja, aquilo a que Albert Hirschman chamou «exit» em oposição a «voice» (Exit, voice and loyalty, 1970). A «falta de voz», pela ausência física ou devido às poucas letras, é a causa do abstencionismo eleitoral e da indiferença política, reforçando paradoxalmente as tendências despóticas do Estado, antes e depois de Salazar. Com efeito, Portugal só terá ultrapassado a «literacia restrita» depois da 2.ª Guerra Mundial (Jack Goody, Literacy in traditional societies, 1968). Ora, as poucas letras e a amoralidade, tanto das pretensas elites como de muitas famílias desmunidas, são responsáveis por mais diferenças sócio-culturais do que o próprio dinheiro.

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