Acabo de aterrar no aeroporto depois de uma escapada de quatro dias num país a duas horas mais do nosso fuso horário. Ainda estico as pernas e estalo os ouvidos quando os passageiros que comigo partilharam o voo se apressam a reunir a sua bagagem e em passos decididos se precipitam para a saída. Alheada, saboreio com um sorriso interior as memórias que aleatórias me surgem frescas das experiências destes últimos dias e, num misto de pesar por a viagem ter terminado e de satisfação por a ter concretizado, lá me encaminho para casa. Nesse percurso de regresso apercebo-me das emoções positivas que sinto e de como estas superam a previsão que fiz inicialmente quando reservei os voos. É tão bom conhecer outras culturas, experimentar comidas diferentes, interagir noutra língua, explorar novas paragens…

Vivemos num mundo de abundância sem precedentes, não obstante exista a mega-concepção errada de que “o mundo está cada vez pior”. Ainda que poucos de nós possam viver segundo o slogan “do ter tudo”, uma crescente parte da população de países de médios e elevados rendimentos (é desactualizada a classificação dicotómica que opõe países desenvolvidos aos em vias de desenvolvimento) tem mais meios discricionários disponíveis do que alguma vez até agora. E, já agora, lembro que 85% da humanidade estão já no grupo a que costumávamos chamar de “mundo desenvolvido”. Dedicamos uma considerável parte dos nossos recursos na persecução de uma “boa vida”, ou seja, de satisfação, prazer e felicidade. Para muitos de nós, decidir em que investir os nossos recursos para optimizar a felicidade é um desafio constante.

Será que somos tão felizes como podemos ser, tendo em conta os meios ao nosso dispor? Quanto mais dinheiro ou mais tempo livre ou mais coisas necessitamos para ser mais felizes? Claro que estas questões não se aplicam, obviamente, a todas as pessoas. Aquelas com recursos muito limitados preocupam-se mais, legitimamente, em satisfazer necessidades básicas como alimentação, casa e vestuário (Maslow, 1943). Mas para uma maioria afortunada de pessoas de países, também como o nosso, que contam com uma significativa quantia disponível livre de condições, podemos questionar-nos acerca da melhor estratégia a seguir para alocar recursos na procura da felicidade….

Observa-se, no entanto, que uma estratégia comumente utilizada pelos consumidores para aumentar a sua felicidade é adquirindo bens materiais. As sociedades industrializadas têm negligenciado o “ser” em detrimento do “ter”, na procura de confortos vários, e a evidência produzida pelas ciências comportamentais demonstra que os aumentos generalizados da quantidade de bens materiais praticamente não produzem ganhos mensuráveis no nosso bem-estar psicológico ou físico, estando associada com menos felicidade e satisfação com a vida, relações inter-pessoais mais pobres e níveis mais altos de ansiedade e depressão. Imersa nas sensações positivas que a viagem me proporcionou e que ainda não se esbateram, rapidamente me encontro a prometer a mim mesma fazer mais vezes isto, investir mais em experiências de vida e menos em adquirir coisas, como que a tentar regravar para não esquecer aquilo que sei que a ciência psicológica já demonstrou sobre o que mais contribui para o bem-estar e felicidade das pessoas: experiências como actividades ao ar livre, eventos, entradas e bilhetes, viagens…

Mas porque é que adquirir experiências torna as pessoas mais felizes do que adquirir bens materiais (atenção, não há aqui qualquer juízo moralista)? Porque a nossa mente tem intuições que muitas vezes estão muito muito erradas e contra as quais temos que lutar. A nossa mente tem uma tendência realmente terrível de se acostumar com os objectos, com os bens materiais. E, de facto, isso acontece sem que nos apercebamos de tal, o que significa que “as coisas” que inicialmente são boas deixam de o ser logo depois porque nos acostumamos a elas.

A isto denomina-se adaptação hedonística. A compra de um determinado carro, que nos parece um bom investimento pois irá durar muito tempo devido à sua qualidade, passado um tempo pouco ou nada contribui para a nossa felicidade. A aquisição de mais um electrodoméstico, ou de um certo casaco ou de um outro relógio que até estão em promoção e a bom preço… ficam ali, não desaparecem, até que nos fartamos deles, pois já não têm o efeito novidade.

Depois de por uns instantes me ocorrerem, com embaraço, vários exemplos em que sobre-avaliei os benefícios de compras que realizei e que tão pouco me satisfizeram, devoto-me ao compromisso de investir mais nas experiências hedonísticas, propiciadoras de mais relação com os outros e de vitalidade. É que essas tais experiências são mais passíveis de, como os psicólogos referem, re-interpretação positiva com o passar do tempo, ou seja, de não pesarem com culpas e não requererem crescentemente mais e, na verdade, têm mais que ver com a identidade das pessoas e possuem maior “valor social”.

Quer tomar melhor decisões para aumentar a sua felicidade, ou vai continuar a confiar nas suas previsões?