Tendo sido Ministro das Finanças e do Plano do governo presidido por Francisco Sá Carneiro e tendo estudado os seus textos sobre o exercício do poder democrático em Portugal, não posso deixar de me sentir chocado com a tentativa de apropriação do seu nome por parte de pelo menos três candidatos presidenciais, André Ventura, João Cotrim de Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo, os quais, no plano ético, político, social e económico, estão quase nas antípodas daquilo que Francisco Sá Carneiro defendia.
Francisco Sá Carneiro era um defensor da social-democracia moderna, um humanista, homem de princípios firmes, distante tanto do socialismo de Estado, como de uma sociedade dominada pela sacralização do mercado em nome da eficácia.
Sá Carneiro queria fazer de Portugal uma democracia de tipo ocidental em que vigorasse o primado da dignidade e afirmação da pessoa humana, a solidariedade e a justiça social. O desenvolvimento equilibrado do país e o combate à pobreza eram dois dos seus grandes propósitos.
Em virtude da sua trágica morte há 45 anos, Sá Carneiro, que governou o país durante apenas onze meses, não teve tempo para pôr em prática o seu projeto de desenvolvimento social e de reformas para a modernização do país e para a melhoria das condições de vida dos portugueses.
Considero, pois, intolerável que na campanha eleitoral em curso, com o objetivo de atacar o candidato Luís Marques Mendes, se procure reescrever a história de um político de excecional craveira como Francisco Sá Carneiro, que tive o privilégio de acompanhar de perto na sua ação como Primeiro-Ministro.