Há um espectro que ultimamente tem assombrado a nossa sociedade, o politicamente correcto. O politicamente correcto poderá ser definido como um condicionamento daquilo em que acreditamos por estarmos mais preocupados sobre aquilo que outros vão pensar.

Para perceberem, até poderá ser uma espécie de rigorosa etiqueta de sociedade contemporânea. Tal como na sociedade de cortes de Luís XIV, em que os seus membros competiam para saber quem era mais requintado, hoje vemos um fenómeno similar. Ora bem, isto traz-nos um problema. Acabamos então por cair nas garras profundas da hipocrisia.

Vivemos na chamada sociedade de consumo, uma sociedade deveras superficial em que competimos pelo ter e pelo parecer. E agora perguntam, e bem, onde entra o politicamente correcto?

Como existe esta necessidade constante de competição, alvejamos um ideal padronizado em que devemos para tal sentir toda a aprovação, como se fossemos um ser moral intocável. Como é óbvio, além de clara ilusão, essa suposição é deveras perigosa. Podemos então cair na falácia que a nossa opinião é sempre a mais verdadeira e poder-nos-á inibir de assumir as nossas convicções para assim sermos socialmente aceites.

Bem diria Galileu Galilei em 1633, (quando rejeitou a sua teoria heliocentrista perante a Inquisição), que em certas situações é difícil manter as nossas convicções, mas este fenómeno generalizou-se de tal maneira que já não pode ser ignorado. Situações como a do presidente canadiano Trudeau ou do jogador Bernardo Silva que foram chacinados com acusações de racismo, como se quem os criticou estivesse acima de qualquer crítica, refletem esta idiossincrasia.

Esta obsessão afecta também a realidade política. A elite tende constantemente a entrar neste ciclo vicioso, que só contribui para o esvaziamento e inutilidade das suas acções e palavras. Em consequência disto, cria-se uma população enfadada que se afasta do sistema político tradicional. Para percebermos isto, basta verificarmos o nível de abstenção das últimas legislativas em Portugal. Denota-se completamente que neste momento o processo político está completamente desfasado dos “demands” da população, urgindo assim que o mesmo se adapte rapidamente às exigências da população para que estes se voltem a sentir identificados com o sistema político.

Esta inadaptação e desfasamento têm também os seus abutres. Não é imune a isto o crescimento de movimentos extremistas de ambos os espectros políticos. A apresentação de movimentos que derrubam todas as convenções e postulados tem imenso sucesso porque, mal ou bem, são uma lufada de ar fresco para as inquietações desta população alienada. Caímos então, no vazio da hipocrisia.

Existe assim a ausência de um meio-termo entre opiniões e, um crescente fértil para posições extremadas nas mais diversas causas, uma falsa dicotomia de tudo ou nada. Uma forma apetitosa de mobilizar a população para certas questões, que já pareciam ultrapassadas. Damos conta hoje de toda uma sensibilidade de massas, em que cada vez mais se leva a mal a discussão de ideias e pontos de vista distintos, no qual o debate político e social só sai diminuído pelo extremismo e intransigência nas mais variadas questões. Será também, escusado dizer que o aproveitamento de velhas questões de minorias para mediatização política e social é intelectualmente desonesto, algo que ultimamente tem vindo a acontecer.

Com isto, só poderemos resolver os desafios futuros com uma saudável, equilibrada e adequada discussão de ideias, longe de chavões, palavras vazias e aproveitamentos populistas. Ao mesmo tempo, todo o sistema político representativo terá que se adaptar às exigências da sociedade actual.