Durante anos foi conveniente fechar os olhos à proveniência do dinheiro de Isabel dos Santos. Era sabido de onde vinha e da importância que ser filha do presidente de Angola tinha nos negócios em que esta intervinha. Apesar disso o rótulo de ‘empresária de sucesso’ colou. Foi uma forma de limpar a consciência. Isabel dos Santos era uma excelente empresária, como Zeinal Bava foi um gestor exemplar e José Sócrates um primeiro-ministro fora de série. Hoje rimo-nos, mas as pessoas quando precisam de acreditar em algo acreditam em tudo.

Sucede o mesmo com o socialismo: apesar de se saber no que já deu, continua por aí a dar e a vender. No entanto, como o socialismo é um modo de estar na vida é mais difícil de descartar. Excluir uma pessoa é fácil: basta dizer que não se conhece, que nunca se teve negócios com ela, ou que se sim mas que se ignorava por completo o que esta fazia. E quem diria que aquele dinheiro era de origem duvidosa? Já excluir o socialismo é mais complicado. Não só é difícil renunciar a algo que não é visível, mas que se desvanece e não passa de um modo de vida, como fazê-lo implica que quem o faz deixe de ser quem é.

O socialismo é um modo de vida que permite a alguns beneficiarem do dinheiro que o Estado retira aos cidadãos e tem o poder de distribuir. E como, através do socialismo, o Estado ainda decide negócios, beneficiam desse poder também. Debaixo da capa da solidariedade, o socialismo permite-se cobrar impostos altíssimos que financiem projectos que favoreçam a sociedade. Sob um conceito alargado do que são políticas públicas, decide negócios que não deviam sair do sector privado. Isabel dos Santos diz precisamente isso quando se justifica a si e ao seu pai: “o presidente José Eduardo dos Santos é um homem que sempre trabalhou por Angola, sempre foi um patriota, é um homem que tem um grande legado em relação à pátria. É o arquiteto da paz. É um homem que sempre teve os interesses de Angola e dos angolanos acima dos seus. (…)”. Para Sócrates o interesse nacional também foi o que o guiou na sua governação. São dois exemplos do sobejamente conhecido argumento do bem-comum que justifica benefícios privados.

Na verdade, o socialismo esteve na base dos negócios de Isabel dos Santos, como esteve nos de José Sócrates. Em todos eles o Estado surge no meio. Porque o Estado interfere na economia em Portugal o primeiro-ministro António Costa deu luz verde para que Isabel dos Santos entrasse no capital do BCP. Não foi assim há tanto tempo. Na altura, Pedro Passos Coelho pediu esclarecimentos. O país, o presidente da República incluído, encolheu os ombros. Vivêssemos num regime mais liberal e o Estado interferiria menos nos negócios e um certo tipo de promiscuidade não existiria. Poderia haver outra, mas envolveria menos políticos ou pessoas com ligações à política. Não poria em causa as instituições, nem faria os cidadãos desconfiarem de quem governa o país.

Há também outro fenómeno que explica porque é mais fácil virar as costas a alguém que a um modo de vida. A pessoa ostracizada é um excelente barómetro para os que a abandonam. A sua nova miséria comprova que estão a ser bem-sucedidos nesse esforço de afastamento. Abandonar uma ideia é mais difícil porque a ideia continua igual. Não há qualquer referência imediata a comprovar que quem a abandona saia incólume. Talvez por isso haja no abandono de alguém todo um procedimento que envergonha qualquer pessoa que se preze ser pessoa. Isso é evidente na forma como tantos em Portugal até há dias veneravam Isabel dos Santos e hoje a repudiam. É a lei da sobrevivência. A sobrevivência dos que precisam expiar os pecados para continuarem na mesma. Para que o seu modo de estar na vida continue intacto. Não mude; não se altere. Para que o socialismo, a tal promiscuidade entre Estado e negócios, continue.