Global Shapers

Já não há desculpa

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Vivemos numa época em que o nosso impacto negativo no mundo está a poucas décadas do ponto de não retorno. Já não é tanto sobre como será o mundo para os nossos netos ou filhos, é ainda antes disso.

Estava em Paris num almoço na companhia de amigos. Tirei uma foto ao meu prato para fazer uma referência à gastronomia francesa e partilhei no Instagram. Asneira. No prato estava um bife e não era pequeno. Primeiro recebi uma mensagem de uma palavra apenas: “vergonha”. Depois, uma mais longa: “talvez seja aceitável comer carne de vez em quando mas promoveres que o fazes tendo em conta que trabalhas em social good e sabendo que te seguem já não é tão normal”. Seguiram-se a terceira, quarta e mais umas quantas que me alertavam para o meu dever em tirar partido do facto de alguns me ouvirem ou lerem e comunicar o que é certo e não o contrário.

A minha primeira reação foi de “está tudo louco”, numa de agora é tudo ou nada, preto ou branco e não há nada a meio caminho. Mas desligado o modo defensivo há razão nestas reações. Portanto não serve de compensação, mas vamos lá escrever sobre isto.

Vivemos numa época em que o nosso impacto negativo no mundo está a poucas décadas do ponto de não retorno. Já não é tanto sobre como será o mundo para os nossos netos nem mesmo filhos, é sobre o mundo daqui a apenas poucas décadas.

De acordo com o relatório lançado a 8 de outubro pelo Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) , já não basta limitar o aumento da temperatura a 2 ºC acima do nível pré-industrial. Se permitirmos que a temperatura global aumente 1.5 ºC acima do nível a que estava na era pré-industrial ou também chamada “era natural” entramos num momento de não retorno para a salvação da Terra, estamos já a caminho do limite que pode ser atingido nos próximos 12 anos.

As consequências do aumento de 1 ºC podem já ser sentidas, com temperaturas extremas, nove dos dez anos mais quentes de toda a história ocorreram depois de 2004, o aumento do nível médio das águas do mar tem atingido uma taxa entre 10 e 20 milímetros por ano, o dobro da velocidade dos 80 anos anteriores, a diminuição do gelo no Ártico, este ano viu um mínimo de 1.63 milhões de km2, os cientistas da NASA Claire Parkinson e Nick DiGirolamo calculam que o gelo marinho do Ártico perdeu 54 mil km2 desde os anos 70.

Esta informação é alarmante e não é novidade. Desde 1970, pouco se alterou:

  • a pegada humana ultrapassou a capacidade da terra e seriam agora necessários 1.6 planetas para providenciar recursos de forma sustentável;
  • o index  de biodiversidade desceu 50%, o planeta perdeu metade das espécies de animais selvagens nos últimos 40 anos, enquanto a população de outras espécies continua a decrescer;
  • a emissão de gases de efeito de estufa quase duplicou causando o aquecimento global;
  • o mundo perdeu mais de 48% das suas florestas tropicais e subtropicais.

A questão neste caso é que ao contrário dos eventos geológicos de extinção massiva, esta extinção é causada apenas por um fenómeno – o ser humano.

Então, e eu? E tu? Qual é a nossa responsabilidade nesta conversa? Comentamos que estamos a estragar o planeta, que o Homem é o pior veneno que a Terra tem e que não podemos continuar assim. Mas até que ponto estamos preparados para comprometer a nossa comodidade para contribuir para um futuro existente? Até que ponto somos capazes de colocar o bem maior à frente do nosso egoísmo e comodidade no nosso dia a dia?

Uma das dificuldades é ter a informação correta — existem diversos estudos e artigos que defendem diferentes coisas, por isso a desinformação é também um problema. É mais fácil fechar os olhos se os estudos não mostrarem um caminho único a seguir.

Bom, para ficar claro, estas mudanças estão ao meu alcance, e, portanto, provavelmente ao teu também.

  • Ter cuidado com a alimentação – segundo o INE os portugueses comem em média 108 kg de carne por ano o que quer dizer que cada um de nós tem um impacto de 3.9 toneladas de CO2 no planeta. Mas cuidar a alimentação não significa apenas retirar a carne, significa perceber o impacto das plantações de soja e de palma que destroem ecossistemas e florestas. Significa que consumir produtos locais e de época deve ser uma prioridade e escolha diária.
  • Não desperdiçar – por um lado, o consumo exagerado de calorias. Hoje o ser humano consome mais do que necessita, o que significa que estão a ser utilizados recursos naturais para produzir essa comida.
  • Viajar de forma sustentável – Uma viagem Lisboa-Londres produz 0.50 toneladas de CO2, quantas viagens temos que fazer por ano? Qual a melhor forma de viajar, podemos ir de comboio? Conseguimos comprometer o nosso tempo para salvar o ambiente, para salvar o planeta?
  • Usar transportes públicos ou partilhar carro – em Portugal ainda não decidimos fazer a passagem do veículo próprio para os transportes públicos, muitas vezes para ganhar mais 30 minutos num dia ou para termos mais controle do nosso dia a dia. Será que conseguimos partilhar carro e esperar meia hora por um colega?

E se às nossas resoluções de 2018 ou às que fizemos no regresso das últimas férias juntarmos algumas ações que podem ajudar a salvar o mundo? Este é um dos maiores desafios de hoje. Eu sinto-me recrutado, e tu?

Hugo Menino Aguiar é cofundador e presidente executivo do www.speak.social, cofundador e presidente da Associação Fazer Avançar. Foi reconhecido pelo Insead como um dos jovens empreendedores sociais com mais potencial em Portugal e pela UNAOC como um dos mais promissores na região Euro-Med.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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