Ainda as vítimas do despenhamento do Airbus 321 russo no Deserto do Sinai não estão sepultadas e ainda se desconhecem as causas da tragédia e já há quem tenha dado início a uma dança macabra em torno do luto das famílias russas atingidas pela desgraça.

O famoso jornal satírico francês Charlie decidiu publicar duas caricaturas de muito mau gosto sobre a tragédia. O autor de uma das caricaturas “chama a atenção” para o perigo de voar em companhias de baixo custo russas e recomenda a “Air Cocaine”.

A segunda caricatura vai ainda mais longe na sua “ousadia” na crítica à intervenção militar russa na Síria.

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Talvez para diminuir o efeito odioso destas publicações, o jornal coloca as duas caricaturas na última página, onde normalmente publica os desenhos rejeitados para primeira página. Mas trata-se de uma explicação nada convincente para uma enorme falta de respeito pelas mais de 200 vítimas da queda do avião russo que voava do Egipto para São Petersburgo.

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Há limites para tudo, estejam as publicações na primeira ou última página. A falta de respeito pelas vítimas é evidente.  As cerca de 20 crianças que voavam no aparelho russo não foram responsáveis pela política externa do Presidente Putin, nomeadamente pelo envio de aviões russos para a Síria.

Pode-se discordar da política autoritária e imperialista do Kremlin, mas nem todos os meios são admissíveis para a criticar.

Com isto não quero dizer que seja necessário matar os autores das caricaturas a tiro ou à bomba, como fazem os bárbaros extremistas, mas existem outras formas de reagir a este tipo de “jornalismo”: condenar a falta de respeito e deixar de comprar publicações desse tipo.

Não me venham falar do direito sagrado à “liberdade de expressão”, pois a publicação no Charlie Hebdo nada tem a ver com isso, é mais um tiro cobarde nas costas dessa liberdade.

Maria Zakharova, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, comentou este incidente com uma pergunta: “Ainda alguém é Charlie?”. Embora eu discorde quase sempre do que essa funcionária russa diz, desta vez, respondo: “Eu já não sou Charlie!”.

A União Europeia apresenta-se como um espaço democrático que poderia ser um modelo a seguir pela Rússia, mas a iniciativa do Charlie Hebdo é daquelas que me leva a dizer: “amigos russos, peço-vos desculpa, tenho vergonha por publicações como estas”.