No universo político-partidário a disponibilidade para se ser candidato e querer ir a eleições, para cumprir um qualquer mandato que disso dependa, é amiúde justificada pela vontade de contribuir abnegadamente para a causa pública.
Nessa recorrente retórica cabe por isso, quase sempre, um número considerável de declarações paralelas que tentam associar essa mesma disponibilidade a um assinalável prejuízo pessoal inerente aos candidatos. É, recorrentemente, disseminado que o contributo dado pelos candidatos quando se apresentam a votos será sempre em prol das populações, naquilo que deve ser reconhecido, por todos, como um nobre sentido de missão, tantas e tantas vezes lesivo para os próprios, que sentem o desígnio imperativo de o cumprir até mesmo contra os seus próprios interesses pessoais.
No entanto, quando os mandatos começam efectivamente a ser cumpridos e o poder é finalmente conquistado tende a ficar evidente que, na grande maioria das vezes, o status quo que sempre quis ser alcançado, por alguns candidatos, se tratava única e exclusivamente do mero acesso a esse poder e o que dele poderia advir.
Um poder que quando alcançado desejam que seja imperturbável.
Um poder que passam a pretender manter a todo custo, contra tudo e todos, custe o que custar, não olhando a meios para esse efeito.
Apelativo e viciante, esse dito poder e a intrincada teia que cria à sua volta, plena de circuitos passíveis de servir múltiplos interesses e satisfazer um sem número de necessidades, parece fortalecer quem o detém, mesmo que o seu usufruto seja temporário, colocando os mandatados, tantas vezes cheios de nada, no centro de tudo.
Permeáveis a laivos de sobranceria, altivez e arrogância, misturada com pitadas de “quero, posso e mando”, tudo piora se aliado a esse exercício de poder não estiver associado o mais elementar pingo de ética por parte do mandatado. Tudo piora se esse exercício de poder for levado a efeito por pessoas sem qualquer gravitas e por tal sem qualquer comprometimento com os valores basilares de honra e dever.
É consabido que o poder é um antídoto poderoso para a solidão de quem exerce determinados cargos e funções porque, se virmos bem, quem o detém parece nunca estar sozinho, à sua volta estão sempre os muitos que pelo poder e pelo que esse poder pode proporcionar são atraídos. O poder magnetiza mas, ao mesmo tempo, é tão volátil e efémero como a transitoriedade desses mesmos cargos dos quais emerge e, por tal, nunca deve ser o móbil primordial para a ocupação destes.
Desconsiderar factores éticos e morais no exercício de cargos que implicam sufrágio impõe uma perigosidade evidente no exercício do poder que lhes está inerente porque o poder mal administrado tende a precipitar-se, facilmente, para um perigoso abuso de poder, que acaba por lesar as populações, os territórios e as instituições, somente beneficiando momentaneamente quem o exerce e quem se move no seu circulo gravitacional de influencia.
Imerso numa crise política o país tenta sobreviver à falta de ética e moral que parece grassar transversalmente no universo político partidário. Essa falta de ética e moral e o subsequente abuso de poder associado parece ter a sua génese na actual composição desvirtuada dos partidos políticos onde, quase que de forma generalizada, já não existe militância activa e cívica de relevo. A pertença partidária resume-se, hoje em dia e para uma significativa maioria dos militantes dos diversos partidos políticos, a um conjunto de pessoas que dependem dos partidos políticos para viver e não de pessoas que vivem para os partidos de forma desinteressada e altruísta.
Esta crise mostra bem esta vil realidade político-partidária, uma realidade refém de interesses difusos e necessidade de perpetuação do exercício do poder a todo o custo, e que é já uma séria e inquestionável ameaça para a sobrevivência da democracia e das instituições.
Perante esta evidência, assistimos assim a uma situação sui generis em que os condicionalismos e a situação pessoal de uma única pessoa arrastam todo um partido político, toda uma coligação já de si fraca e desigual, e todo um país para um lamacento lodo. Um lamacento lodo que, irresponsavelmente, se pretende vir a legitimar por um acto eleitoral que, com os mesmos intervenientes, não será mais do que uma encenação que se prevê patética.
O voto não legitima tudo e seguramente não poderá aclarar nem branquear de forma nenhuma o lodo inerente a uma situação dúbia como a que ocasionou toda esta situação e trouxe o país até esta encruzilhada.
A vontade legítima e abnegada de contribuir para a causa pública, mais do que se predispor para ser candidato e integrar listas para poder vir a ocupar determinados cargos, terá de implicar ter a hombridade para se retirar quando o contributo a oferecer já não ser mais do que mera instabilidade e intrincada opacidade.
(Escrito de acordo com o anterior acordo ortográfico)