Por estes dias, o mais natural é o quase inevitável sentimento de insegurança e de falta de confiança ditado pelo caminho que leva a pátria nos mergulhar numa espécie de dúvida existencial. A dilacerante questão é: até que ponto vale a pena levar as coisas a sério, quando tudo se assemelha a uma farsa generalizada em que a classe política parece sobretudo interessada em não nos fazer o favor de se preocupar connosco? E: levá-la a sério não será uma maneira de lhe supor uma respeitabilidade e uma consequência que a gratificam muito para lá de qualquer merecimento real?

Seria óptimo, é indiscutível, poder não levar nada daquilo a sério. E é verdade que, por vezes, tudo conspira para que não levemos. Mas a tal dúvida existencial faz sentido. Porque, ao mesmo tempo, devemos levar a sério o que nos ameaça, e a farsa em que andamos a viver tem muito de ameaçador. Ela sustenta-se desde o princípio numa atmosfera de irrealidade que permite dizer uma coisa e fazer o seu contrário sem que isso suscite sequer o mais vago protesto. A contradição entre o discurso e a realidade tornou-se até a regra. O problema é que a contradição entre o discurso e os factos existe mesmo e vai minando tudo em que toca e poluindo de forma sistemática toda a conversa política. A pouco e pouco, os resultados vão-se vendo. E quando começam a furar a superfície do discurso já vêm com uma força praticamente imparável. Alguém duvida da catástrofe que se aproxima, por exemplo, do SNS?

É uma chatice, mas isto tem-se tornado uma especialidade do PS. Porque foi assim com Sócrates e está a ser assim com Costa. Dir-se-á que o caso de Sócrates foi excepcional, quanto mais não seja por causa da excepcionalidade do próprio Sócrates, e que Costa, comparado com ele, é um político “normal”. É esquecer que a suposta “normalidade” de Costa é largamente contrabalançada pela radical anormalidade (apresentada como uma grande conquista democrática, como se sabe) da sua política de alianças com o Bloco e o PC. Por causa dessa política, Costa arrisca-se a ser ainda mais deletério do que o foi Sócrates. Até porque transformou radicalmente o PS, tornando-o num lugar onde a moderação deixou de ser bem acolhida. E não se julgue que tudo isto é da ordem do passageiro. Não: veio para ficar. Vai ficar, custe o que custar. A questão não é obviamente o facto de o PS se tornar, ou não, “mais de esquerda”, o que quer que isso queira dizer – e hoje em dia é cada vez mais difícil saber o que quer dizer. A questão é a do tipo de esquerda que se trata. E a esquerda escolhida – isso percebe-se com facilidade – é péssima.

Como muita gente não se cansa de repetir, a atmosfera de irrealidade afectou também a oposição. E também aqui o problema não é Rui Rio julgar-se mais de esquerda do que Passos Coelho. Se isso o consola, não vem por aí mal nenhum ao mundo. O problema, aquilo de onde vem mal ao mundo, é o PSD ter decidido fazer integralmente parte da farsa ambiente, sem explicitar um milímetro de recuo ou distância face a ela. Dito de outra maneira: decidiu banhar-se na mesma atmosfera de irrealidade, logo patente na aceitação da “normalidade” da situação que vivemos.

Numa situação como esta, a banal constatação do óbvio pertence quase à esfera do indizível. Acha-se estranho um governo seguir uma política de corte nas despesas (via “cativações”, por exemplo) com consequências claramente danosas para o funcionamento regular de várias instituições e, ao mesmo tempo, esse mesmo governo proclamar o “fim da austeridade”? É não perceber a subtileza da política e a extraordinária genialidade da sua condução por Costa. Acha-se contraditório e irreal pretender-se ao mesmo tempo seguir as políticas económicas da União Europeia e satisfazer as reivindicações do Bloco e do PC? É não compreender a sabedoria que preside ao entendimento do PS com as forças à sua esquerda e viver preso a oposições que, com rigor matemático, Costa mostrou não fazerem já sentido.

Claro que as supostas dificuldades de entendimento e compreensão são tudo menos isso. Elas resultam do facto de se ver muito bem o novelo de mentiras e de silêncios necessário para ter chegado ao poder e o conseguir manter. E de se adivinhar com clareza que essa situação de mentira habitual e quase esquizofrénica cria forças de desagregação só muito dificilmente controláveis. Pretender que isto não é assim e que a situação é normal, limitando as divergências com o governo a detalhes pontuais, é desqualificar-se perfeitamente como oposição. A situação em que vivemos é tudo menos normal e começa a mostrar os seus mais temíveis aspectos junto dos mais desfavorecidos, como, por exemplo, no SNS. E a procissão ainda vai no adro.

Levá-los a sério ou não os levar a sério? Não os levar a sério, sem dúvida, no que respeita à existência de um pensamento da sociedade aberto e capaz de olhar o mais claramente possível para os problemas reais que afectam as pessoas. Mas levá-los a sério, certamente, na sua capacidade de, pela cegueira, produzirem catástrofes em catadupa. Seria de facto óptimo limitarmo-nos a rir da farsa grotesca que nos rodeia e na qual os nossos políticos se mexem como peixe na água. Desgraçadamente, é preciso andarmos com atenção. E de vez em quando convém tentar perceber como funciona a cabeça daquela gente. Nesses momentos, o medo tira-nos a vontade de rir.