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Liderar é, naturalmente, coisa de mulher /premium

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Um estudo do FMI descobriu que substituir apenas um homem por uma mulher no conselho de administração de uma empresa pode levar a aumento de 3% a 8% em rentabilidade.

Maio será um mês histórico para Portugal. Pela primeira vez, teremos duas mulheres a liderar duas das maiores empresas do país Paula Amorim na Galp e Cláudia Azevedo na Sonae. E pode parecer exagerado, mas “histórico” é mesmo a palavra certa, pois, no ocidente, apesar das mulheres representarem quase 50% da força de trabalho, nos cargos de liderança, apenas um em cada dez líderes é mulher. E em Portugal, as estatísticas são ainda piores.

Apesar de todos querermos acreditar em meritocracias, existe ampla evidência que as mulheres não são promovidas por falta de competência ou bons resultados, mas porque consciente ou inconscientemente não associamos as competências tendencialmente mais femininas ao que imaginamos que um líder deve ser. No entanto, existem muitas evidências sobre a qualidade das mulheres enquanto líderes.

Um estudo do Fundo Monetário Internacional descobriu que empresas com mais mulheres em cargos seniores conseguem um “retorno significativamente maior de ativos”. Em média, e segundo o estudo, substituir apenas um homem por uma mulher no conselho de administração de uma empresa pode levar a aumento de 3% a 8% em rentabilidade.

Outro estudo recente, desta vez do Boston Consulting Group e do MassChallenge, mostram que o investimento em startups co-fundadas por mulheres garantem maior retorno financeiro. Por cada dólar de financiamento, essas startups geraram 78 centavos, enquanto as startups fundadas por homens geraram menos da metade disso – apenas 31 centavos.

Por outro lado, as competências de mulheres são percebidas e muito requisitadas em momentos de crise. Mary Barra na GM, Marissa Mayer na Yahoo e mais recentemente Theresa May no Reino Unido, mostram que as mulheres tendem a assumir cargos de liderança quando a situação é quase irreparável, o que poderá enfraquecer a possibilidade de outras mulheres chegarem a cargos de liderança no futuro. Este fenómeno é tão recorrente que levou Alex Haslam, da European CEO, a criar o termo “glass cliff”. Alex Haslam testou esta teoria em ambiente controlado, com estudantes do secundário a pós-graduação e, num dos cenários criados, pediu aos participantes que escolhessem um consultor para um festival de música. Aos que foi dito que o festival não estava a correr bem, 75% preferiram o candidato do género feminino, enquanto que apenas 38% escolheram a mesma candidata quando lhes disseram que o festival estava a correr bem.

Alguns estudos mostram que os homens tendem a ter melhor desempenho quando o foco é em gerir tarefas, enquanto as mulheres tendem a ter melhor desempenho quando o foco é em gerir pessoas, atitudes, valores e motivação. Em 2019, e com chegada da Inteligência Artificial ao local de trabalho e com decisões cada vez mais data-driven, as competências das mulheres mais voltadas para as pessoas, para a sua motivação e para a criação de ambientes de trabalho seguros, com claras oportunidade de aprendizagem e crescimento, serão cada vez mais importantes e valorizadas.

Isto é ainda reforçado por um estudo realizado por Dan Ariely, o famoso psicólogo e economista comportamental da Universidade de Duke (EUA), que usou informação recolhida pela organização Great Place to Work para perceber se existia alguma relação entre a satisfação dos colaboradores e a performance das ações no mercado de capitais, tentando identificar boas práticas ou procedimentos que as empresas implementavam. Esta investigação teve um resultado inesperado, mostrando que as empresas em que colaboradores consistentemente reportam sentirem-se seguros (física e psicologicamente) no local de trabalho têm uma performance no mercado de capitais significativamente melhor, em algumas situações 200% melhores.

Em suma, num momento em que começamos a ter finalmente mulheres em cargos de liderança, é importante conseguirmos criar um novo paradigma que dê resposta ao que as empresas e as suas pessoas precisam e que defina claramente o que significa liderar como mulher. Porque a verdade é que não precisamos de mais Margaret Thatcher’s que, apesar de todo o mérito que teve, optou por um estilo de liderança claramente masculino, manifestando publicamente que não gostava de trabalhar com outras mulheres. Talvez possamos começar por construir este novo estilo de liderança olhando para o exemplo da Primeira-Ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern que, com a sua postura e trabalho desde o atentado às mesquitas de Christchurch, tem mostrado que é possível liderar de uma maneira diferente e melhor.

Inês Santos Silva tem 29 anos é Diretora Executiva da Aliados – The Challenges Consulting e fundadora da comunidade Portuguese Women in Tech. Juntou-se ao Global Shapers Lisbon Hub em 2013 e é presença assídua em eventos do Fórum Económico Mundial, tendo já participado nos eventos de Davos (Suíça) e de Tianjin (China).

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.

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