Rádio Observador

Global Shapers

O futuro do trabalho

Autor
498

Já há bots a resolver multas de trânsito, algoritmos a escolher tratamentos para cancro ou a selecionar profissionais. Próximas décadas serão desafiantes, mas há dois vetores a precisar de trabalho.

Há cerca de dois anos vi um gráfico que nunca mais esquecerei. Analisando todos os bestsellers do New York Times na categoria de ficção científica até ao ano 2000, a visão do futuro mais partilhada era claramente positiva (utopia) e a partir daquele momento a maior parte dos livros foca-se numa visão muito negativa do futuro (distopia). Na altura não procurei a explicação para este fenómeno, mas sempre me intrigou o porquê desta mudança tão radical que aconteceu com a mudança do século.

Apesar de vivermos no século mais pacífico e próspero de sempre, apesar de nos últimos anos milhões de pessoas por todo o mundo terem saído da pobreza e de hoje termos uma esperança média de vida elevadíssima na maioria dos países, existe uma grande incerteza em relação ao futuro. Essa incerteza leva a que surjam movimentos populistas de direita e esquerda, como os que estamos a testemunhar nos Estados Unidos, mas também em alguns países na Europa.

Uma das áreas em que esta incerteza é mais evidente é na área do futuro do trabalho. Nos últimos dez anos, o número de pesquisas do termo “Future of Work” duplicou e podemos encontrar 378 milhões de resultados, que resultam de um interesse crescente no tema.

Entre estes podemos destacar o estudo desenvolvido por Carl Benedikt Frey e Michael Osborne da Universidade de Oxford, que analisaram 702 profissões e concluíram que nas próximas duas décadas 47% destas profissões irão desaparecer porque os trabalhos serão feitos por robôs.

Estas conclusões são reforçadas pelo estudo “The Future of Jobs” desenvolvido pelo Fórum Económico Mundial que mostra que entre 2015-2020 perder-se-ão 7,1 milhões de postos de trabalho, sendo que dois terços são trabalhos de escritório e administrativos.

Ao lermos estes resultados temos tendência a menosprezá-los. E a verdade é que desde a 1ª Revolução Industrial que ouvimos teorias apocalípticas que acabaram por não se concretizar. A Revolução Industrial aumentou o número de trabalhos disponíveis e não o contrário, melhorando significativamente a qualidade de vida dos cidadãos.

De acordo com Yuval Harari autor do “Sapiens: Uma breve história da humanidade” os seres humanos têm dois tipos de capacidade: capacidade física e capacidade cognitiva. Aquando da Revolução Agrícola, e depois Industrial, milhões de trabalhadores foram obrigados a deixar os campos e a trabalharem em fábricas. Aí começaram a aplicar a mesma força física, mudando assim de trabalho, mas usando a mesma capacidade. Mais tarde, durante o século XX, milhões de pessoas fizeram a transição para o trabalho cognitivo, reduzindo significativamente o número de pessoas que usam apenas a força física no seu trabalho. No entanto, em 2017 já muito desse trabalho cognitivo está a ser automatizado. Hoje robots, algoritmos e bots estão a fazer trabalhos que até há pouco tempo seriam impensáveis. Temos bots a resolver multas de trânsito, temos algoritmos a escolher o tratamento para alguns tipos de cancro ou a selecionar candidatos para um determinado trabalho, entre muitos outros exemplos.

É já claro que as próximas décadas serão desafiantes e de transição, mas também de grandes oportunidades e existem dois vetores que necessitarão de muito trabalho.

Por um lado, terá que ser estruturada uma sociedade em que o trabalho não ocupa um papel tão cimeiro nas dinâmicas económicas e sociais. Hoje multiplicam-se um pouco por todo o lado, tentativas de prototipar sociedades em que os cidadãos não dependem do trabalho e têm muito mais tempo livre. Ainda recentemente a Finlândia foi o primeiro país da Europa a pagar um rendimento básico de 560 euros mensais a desempregados com o objectivo de cortar a burocracia, reduzir a pobreza e fomentar o emprego. O próprio YCombinator (o mais bem sucedido acelerador de startups a nível mundial) anunciou recentemente o lançamento de uma experiência com 100 famílias de Oakland, Califórnia para testar os impactos de um rendimento básico de 1.000 a 2.000 dólares por mês.

Por outro lado, uma aposta na educação é essencial. Também segundo o estudo “The Future of Jobs” desenvolvido pelo Fórum Económico Mundial, desde a década de 60 que trabalhos rotineiros e/ou manuais têm perdido postos mas, em compensação, trabalhos analíticos e não rotineiros têm ganho força. Assim, competências de resolução de problemas, pensamento crítico, criatividade, colaboração e negociação são cada vez mais importantes.

Sendo eu uma otimista impaciente, acredito que todos estes desafios trarão muitas oportunidades cabendo a cada um de nós idealizar, conceptualizar e estruturar esta nova sociedade em que o trabalho ocupará um lugar bem diferente do que ocupa nos dias de hoje, mas em que a expressão individual ocupará um lugar cada mais mais relevante.

Inês Santos Silva tem 28 anos e nos últimos anos tem sido uma das mais ativas dinamizadoras do ecossistema de empreendedorismo nacional. Juntou-se ao Global Shapers Lisbon Hub em 2013 e é presença assídua em eventos do Fórum Económico Mundial, tendo já participado nos eventos de Davos (Suíça) e de Tianjin (China).

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade, como aconteceu com este artigo sobre o ecossistema empreendedor. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Igualdade de Género

Homens feministas precisam-se!

Inês Santos Silva
809

A igualdade de género só será uma realidade com o apoio de muitos Tom Millers, homens que percebem que os direitos das mulheres são direitos humanos e estão dispostos a lutarem por eles.

Global Shapers

10 medidas para revolucionar o SNS

Francisco Goiana da Silva
626

De uma vez por todas, o financiamento tem de acompanhar as escolhas dos utentes do SNS. Nesse dia, teremos um sistema em que o utente é realmente quem manda. Há algo mais democrático do que isso?

Global Shapers

O urinol que é arte /premium

Pedro Líbano Monteiro
115

Em que medida pode um urinol ser arte? Porque razão um urinol há de ser menos arte que um Picasso? Foi esta problemática que levou muitos artistas, no século XX, a expor obras como uma cama por fazer.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)