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Entre zeros e uns a distância é curta. E no género? /premium

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Consciente ou inconscientemente, todos temos preconceitos sobre o papel das mulheres e dos homens na sociedade e sobre o estereótipo de bom programador.

Recentemente, a Fundação Francisco Manuel dos Santos lançou o estudo “As mulheres em Portugal, hoje” que, entre os muitos dados surpreendentes que apresenta, fala que serão precisos 180 anos até existir divisão igual de tarefas domésticas entre homens e mulheres portuguesas. E de acordo com o Fórum Económico Mundial, precisaremos de 202 anos para, a nível mundial, eliminarmos a desigualdade salarial.

Estes números têm em consideração todo o progresso que, felizmente, foi feito nos últimos anos. Contudo, não têm em conta um factor que nos próximos anos irá influenciar negativamente esta aproximação.

Atualmente, apenas 14% dos profissionais portugueses que trabalham em tecnologia e 15% dos estudantes das áreas tecnológicas são mulheres, sendo que este valor não tem vindo a crescer nos últimos anos e está abaixo da média da União Europeia. Sendo este o sector de mais elevado crescimento, criador de maior valor acrescentado e com mais potencial para o futuro, o que irá acontecer a médio e longo prazo é que os profissionais do género feminino estarão “quase” excluídas das áreas que criam mais riqueza.

Mas porque é que isso acontece? Porque é que em 2019, em Portugal e no mundo, continuamos a ter tão poucas mulheres a optar por carreiras nas áreas tecnológicas?

Na década de 60, os psicólogos William Cannon e Dallis Perry estudaram o perfil de 1,378 programadores, dos quais 186 eram mulheres. Concluíram que os programadores mais felizes e satisfeitos com o trabalho eram aqueles que gostavam de resolver puzzles matemáticos ou mecânicos (e até aqui tudo bem), mas também era aqueles que “não gostavam de pessoas”. No seu relatório, Cannon e Perry escrevem que os melhores programadores são aqueles que “Não gostam de atividades que envolvam interação pessoal próxima; e normalmente estão mais interessados em coisas do que em pessoas.” Não existem evidências que isto seja verdade, mas nas décadas seguintes as conclusões deste estudo foram usadas para criar toda uma série de ideias sobre o que é preciso ser e fazer para se ser bom a programar, o que levou as empresas a procurarem contratar homens e a excluírem mulheres da área tecnológica.

E quando escrevo excluir, pode parecer exagerado, mas foi exatamente isso que aconteceu: após a segunda guerra mundial e nas décadas seguintes, as mulheres foram continuamente expulsas da função de programação, por homens muitas vezes, menos qualificados e aptos para a função. Na sua TED talk a Dame Stephanie Shirley, uma pioneira da área tecnológica, fala em como teve que mudar o seu nome para Steve para ser levada a sério e como criou uma rede de mulheres programadoras que faziam o trabalho a partir de suas casas, porque já não eram bem-vindas na indústria.

Mas pouco mudou desde então. Um estudo recente descobriu que o código das mulheres no GitHub é aprovado com mais frequência do que o dos homens, mas apenas se o seu género estiver oculto. Muitas empresas justificam a desigualdade com base no mérito, mas hoje é claro que uma meritocracia é sempre baseada numa definição imperfeita de mérito, criada à imagem dos líderes da organização, que em mais de 90% dos casos são homens.

Organizações como as Portuguese Women in Tech, as Geek Girls Portugal ou as Chicas Poderosas e iniciativas como a Engenheiras por um Dia, entre muitas outras, têm aqui um papel importante a desempenhar, mas não é suficiente. Consciente ou inconscientemente, todos temos preconceitos sobre o papel das mulheres e dos homens na sociedade e sobre o estereótipo de bom programador. No entanto, se queremos que mulheres e homens tenham acesso às mesmas oportunidades e que ambos assumam um papel no sector tecnológico, empresas, governos e indivíduos precisam de dar passos importantes para reconhecer os problemas das meritocracias, treinar os seus colaboradores para conseguirem identificar os seus enviesamentos inconscientes e incentivar as meninas a seguir percursos na tecnologia.

Todos temos que nos juntar a esta luta, porque só assim garantiremos que mulheres e homens atingem a igualdade no mercado de trabalho. Mas se isto não lhe for suficiente, lembre-se que segundo um estudo recente da McKinsey & Company, o avanço da igualdade das mulheres pode adicionar 12 biliões (trillions) de dólares ao crescimento global! 12 biliões de dólares.

Inês Santos Silva tem 29 anos é Diretora Executiva da Aliados – The Challenges Consulting e fundadora da comunidade Portuguese Women in Tech. Juntou-se ao Global Shapers Lisbon Hub em 2013 e é presença assídua em eventos do Fórum Económico Mundial, tendo já participado nos eventos de Davos (Suíça) e de Tianjin (China).

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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