Na passada quinta-feira, o eleitorado britânico demonstrou mais uma vez o seu bom senso e sentido de moderação. Os partidos radicais como o UKIP e o Brexit party simplesmente desapareceram do mapa. A direcção marxista da dupla Corbyn-McDonnel conduziu o Labour a uma derrota histórica só comparável à de 1935. E o velho partido Conservador — o mais antigo partido político do planeta — obteve uma larguíssima maioria parlamentar, comparável à de Thatcher em 1987, tendo quebrado o “muro vermelho” de inúmeros círculos eleitorais que votavam Labour desde 1918.

Charles Moore (biógrafo de Margaret Thatcher) titulou certeiramente a sua crónica no Telegraph do passado sábado: “A lógica da democracia neste país é de ferro, tal como a nossa rejeição do extremismo.” Nessa mesma edição, o Editorial do Telegraph tinha um título com uma mensagem semelhante: “O espaço do centro é agora o centro-direita”.

Para assinalar esta vitória da moderação e do bom senso no Reino Unido, optei por… manter a minha tradição de dedicar as duas crónicas antes do Natal (esta e a próxima) a sugestões de livros para o Natal. A democracia liberal, quando devidamente entendida, é acerca disso mesmo: a protecção pela lei de tradições livres e descentralizadas, não centralmente comandadas por patrulhas de activistas revolucionários ou contra-revolucionários, nem por vanguardas alegadamente iluminadas.

E a minha primeira sugestão de livros para o Natal consiste em revisitar o mais recente livro do grande vencedor das eleições britânicas: Boris Johnson e o seu The Churchill Factor: How one man made history (Hodder & Stoughton, 2014; traduzido entre nós pela LeYa). Não adoro o título, mas apreciei o livro, embora pudesse ser menos centrado em episódios pessoais e mais na filosofia política de Churchill. Ainda assim, é um excelente livro sobre Churchill — que refuta enfaticamente as descrições vanguardistas de BoJo como “um palhaço”.

Para uma visão mais abrangente da vida de Churchill, existe agora entre nós (também traduzida pela LeYa) a mais recente biografia por Andrew Roberts: Churchill: Caminhando com o Destino. O autor apresentou a obra no Palácio da Cidadela, em Cascais, sob o Alto Patrocínio do Presidente da República, a 17 de Outubro, na Palestra-Jantar Anual Winston Churchill do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. A versão original inglesa foi publicada em 2018 e já existem traduções em 10 línguas.

Do Brasil vem entretanto outro livro muito estimulante sobre o velho estadista britânico: Churchill e a Ciência por Trás dos Discursos: Como Palavras se Transformaram em Armas, de Ricardo Sondermann (São Paulo, LVM Editora). Trata-se sobretudo de uma análise de doze marcantes discursos de Churchill, começando em 3 de Setembro de 1939 e terminando em 26 de Julho de 1945. Esperamos poder contar com a presença do autor brasileiro no próximo Estoril Political Forum, a 22-24 de Junho de 2020, sob o tema geral “Novos Desafios Autoritários à Democracia Liberal”.

Mas a mais recente e divertida novidade Churchilliana acaba de chegar de França, traduzida pela Gradiva. Trata-se de uma biografia de Churchill em banda desenhada e em dois volumes, sob direcção do historiador François Kersaudy. Receio ter de confessar que já tenho várias colecções devidamente embrulhadas para oferecer neste Natal.

Finalmente, temos o terceiro e último volume da biografia autorizada (mas não oficial) de uma grande admiradora de Churchill — que gostava de o citar como Winston. Refiro-me à biografia de Margaret Thatcher por Charles Moore, cujo terceiro e último volume saiu recentemente em Londres: Margaret Thatcher: The Authorized Biography, Volume III: Herself Alone (Allen Lane, 2019). Charles apresentou este terceiro volume no Estoril Political Forum de Junho passado, ainda antes da publicação (que só ocorreu em Outubro). E foi uma tocante reflexão sobre Thatcher, Churchill e a tranquila tradição da liberdade ordeira entre os povos de língua inglesa.

Na próxima segunda-feira, apresentarei sugestões de livros para o Natal de autores portugueses — os mais antigos aliados, talvez valha a pena recordar.