O leitor poderá estar a estranhar o título desta crónica: o que tem que ver Lula, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e Bolsonaro?

Em primeiro lugar, vamos entender quando e como começa a relação entre Lula e Edir Macedo. Nesta fase, Bolsonaro ainda não tinha expressão política; este fenómeno carismático, com forte possibilidade de ser o próximo presidente do Brasil, será retratado na segunda parte da crónica.

Em 1977, o então pastor Edir Macedo funda uma pequena igreja evangélica, num bairro pobre da cidade do Rio de Janeiro, com apenas algumas dezenas de fiéis.

A estratégia de poder da IURD começa em 1986, quando começa a fazer um forte investimento na política – em todos os níveis, federal, estadual e municipal – dando apoio com financiamento de campanhas, votos (seguros) dos seus fiéis e espaços (tempo de antena) na sua já expressiva rede de rádios e imprensa escrita. Neste mesmo ano, Lula, o sindicalista, no início de carreira política, é eleito deputado federal pelo Estado de São Paulo.

Do ponto de vista histórico e político, as relações entre a cúpula da IURD e o Partido dos Trabalhadores (PT) começam na primeira tentativa de Lula de chegar à presidência da República. É preciso lembrar que, nesta época, a IURD fazia uma forte oposição ao PT. Nas eleições de 1989, a IURD fez campanha contra Lula e ajudou a eleger Collor de Mello. Começa aqui a demonstração do enorme poder político de Edir Macedo.

Em 1992, quando Edir Macedo foi preso, provavelmente numa tentativa de aproximação, Lula condenou publicamente a sua detenção. Neste mesmo ano, Collor, acusado de corrupção, sobre o processo de impeachmente assume o seu vice Itamar Franco que, provavelmente, em troca do apoio político de Edir Macedo, legaliza a compra da Rede Record pela IURD.

Em 1994, Lula é novamente candidato, mas a IURD apoia Fernando Henrique Cardoso, situação que irá repetir-se na sua reeleição de 1998.

Esta situação conflituosa Lula-IURD perdurou até à quarta tentativa de eleição para presidente do Brasil. Lula reuniu-se, em Brasília, com Carlos Rodrigues, o líder do braço político da IURD, que já controlava uma importante bancada de deputados evangélicos, resultando numa negociação bem sucedida para ambos os lados: atendia aos objetivos imediatos do PT (ganhar as eleições e Lula ser presidente) e, por outro lado, reforçava a ambiciosa trajetória da IURD nos meandros do poder político.

Na eleição de 2002, Lula, que já tinha aprendido a lição – de que a IURD tem poder suficiente para eleger o presidente do Brasil – faz uma aliança política com Edir Macedo. A partir daí, o PT passou a ser apoiado pela poderosa máquina mediática iurdiana, cuja maior expressão é a Rede Record de Televisão, segundo canal mais visto no Brasil, depois da também poderosa Rede Globo. Assim, com o determinante apoio da IURD, Lula conseguiu ser eleito, em 2002, e reeleito em 2006.

Mas há o outro lado da moeda (de troca): o PT ajudou (e muito) na ascensão política de Marcelo Crivella, sobrinho do poderoso fundador e líder da IURD, Edir Macedo. Em 2002, Crivella foi eleito senador pelo Estado do Rio Janeiro e reeleito em 2010, com Lula na presidência do país. Hoje, Crivella é presidente da Câmara da cidade do Rio de Janeiro. Lula, com o forte apoio da IURD, conseguiu eleger Dilma Rousseff, em 2010, reeleita em 2014, que sofre o processo de impeachment em 2016. No primeiro mandato de Dilma, Crivella/IURD fica com o ministério das Pescas e Agricultura.

Em 2014, o PT agradece o apoio: o poder da IURD é demonstrado ao mais alto nível, com a inauguração da sua sede mundial, o Templo do Salomão, na cidade de São Paulo. A cerimónia (a que alguns críticos chamam de ‘beija-mão’) contou com a presença das mais altas autoridades do país: a Presidente (Dilma), o vice e atual presidente (Temer), Ministro do Supremo Tribunal Federal, o então Governador (Alckmin) e o Presidente da Câmara de São Paulo (Haddad) – os dois últimos candidatos à presidência do Brasil nesta eleição.

A partir de 2016, com o processo de impeachment de Dilma, facto aliado aos escândalos de corrupção, envolvendo o próprio Lula (preso em abril deste ano), o PT entra em declínio em todo o país. No eleitorado brasileiro, o índice de rejeição ao PT é de quase 50% dos eleitores. E aqui surge a nossa terceira personagem: Jair Bolsonaro, com forte chance de ser o próximo Presidente do Brasil já neste domingo. Mas isso fica para a segunda parte da nossa crónica: “Bolsonaro e Edir Macedo: uma aliança para ganhar a presidência do Brasil”.

Professor de Sociologia da Universidade da Beira Interior