Conforme referi no livro Os Filhos de Adão e Eva (Edições Asa, 2000), desde os primórdios, uma das preocupações fundamentais da humanidade foi a procura das suas origens. Resumidamente, há 2.2 milhões de anos surgiu o género Homo e há cerca de 400 mil anos a espécie Homo sapiens. Com as primeiras sociedades humanas foram criados os mitos, narrativas orais para explicar o mundo. Somente há cerca de 6 mil anos atrás, com as civilizações, com o politeísmo e a escrita, surgiram as fontes históricas que, assim como os mitos, tinham um carácter marcadamente religioso.

No nosso contexto monoteísta judaico, o documento primordial é o Antigo Testamento (Bíblia hebraica), escrito, provavelmente, no século II a. C. Para além de uma narrativa de fé, é uma importantíssima fonte histórica, teológica e antropológica. No seu primeiro capítulo (Génesis), para além da explicação divina da criação do mundo, é apresentado o mito de Adão e Eva, um modelo metafórico da origem da humanidade. Da extensa genealogia apresentada (atenção sempre ao número 3), podemos resumir e realçar as seguintes etapas: de Adão e Eva, nasceram Caim, Abel e Seth. Caim matou Abel e Seth gerou descendentes até chegar a Noé. De Noé nasceram três filhos, Sem, Cam e Jafé.

Que leitura antropológica podemos fazer desta genealogia? Pode ser considerada como um modelo explicativo dos três principais grupos raciais: dos três descendentes de Noé, os filhos de Cam (camitas) seriam os negros, os de Sem (semitas) abrangeriam os asiáticos-amarelos e os povos do Oriente Médio-morenos e de Jafé os arianos-brancos. Porém, é de Sem(itas) que sairá a linhagem até chegar à Abraão, patriarca fundador das três religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo (que surgiu somente no século VII).

De acordo com o Evangelho de Mateus (Novo Testamento), parte da Bíblia cristã, a genealogia judaica até Jesus pode ser resumida da seguinte maneira: Abraão-Isaque-Jacó (Israel)-Judá (12 irmãos representando as 12 tribos de Israel, dentre elas a de Levi, que teve como ilustre descendente Moisés)-rei Davi-Salomão-Jacó-José-Jesus. É um facto que Jesus nasceu em Belém da Judeia, durante o reinado de Herodes, mas pensar que foi no dia 25 de dezembro e há 2018 anos atrás e que ele era branco (de olhos azuis) e pobre é um erro crasso. E há ainda outras insipiências graves: José, seu pai, não era um pobre carpinteiro, Maria não era virgem e Jesus provavelmente não nasceu num estábulo e colocado numa manjedoura. Como vimos na genealogia apresentada, Jesus era semita-moreno (cabelo preto e de pele acastanhada ou mesmo escura) e descendente de uma linhagem de pessoas importantes, de príncipes e reis.

Agora que se aproxima o Dia de Reis (06 de janeiro), falemos um pouco sobre a suposta visita dos três reis magos, que foram guiados por uma estrela até ao local de nascimento de Jesus. Sendo uma festa católica popular, não deixem de comemorar/festejar este dia, ‘cantar as janeiras’, etc. Mas, segundo o Evangelho de Lucas, quem visitou o menino Jesus não foram reis magos (na verdade, sacerdotes-conselheiros), mas, sim, pastores de ovelhas. Portanto, é uma narrativa mitológica/metafórica, os três reis magos nunca existiram historicamente. A referência destas personagens só aparece no século VII, no contexto do imaginário cristão medieval.

Então, e os tais restos mortais que estão sepultados na Alemanha? De quem são não sei responder, provavelmente de pessoas comuns. A narrativa criada pela Igreja Católica para explicar isso é mirabolante: as relíquias dos três reis magos foram removidas pela mãe do imperador Constantino, Helena, da Índia (onde supostamente os reis magos morreram) para a Turquia (Constantinopla/Istambul), posteriormente levadas para a Itália (Milão) e, finalmente, depositadas na Catedral de Colónia.

Na verdade, do ponto de vista antropológico, os três reis magos retratam, simbolicamente, os três grupos raciais representados pelos filhos de Noé: o camita-negro Baltazar, que ofereceu a mirra, símbolo do sofrimento – e não foram os negros o grupo que mais sofreu (e ainda sofre) na história da humanidade?; o semita-moreno Gaspar, que ofereceu incenso, símbolo da divindade, e o filho de Jafé, o branco Belchior, que ofereceu ouro, símbolo da realeza de Jesus.

Portanto, o mito dos três reis magos é apenas uma representação simbólica, um modelo explicativo de grande significado para reforçar a importância de Jesus como salvador e unificador de toda a humanidade, de todos os grupos humanos, de todos os povos. Mas só por isso não vale a pena celebrar o Natal e o Dia de Reis?