O uso da designação Realpolitik tornou-se popular quando utilizada por Kissinger, e entendida como uma estratégia de segurança e negociação internacional baseada na defesa do interesse nacional dos Estados Unidos e na procura da maximização do seu poder militar e económico. Nela tudo são transações. Não existem ideais ou valores, nem gratidão ou memória, mas apenas o confronto entre interesses próprios. Li há pouco tempo que a palavra Realpolitik foi cunhada por Ludwig von Rochau em 1853, mas a ideia já estava magnificamente expressa no Príncipe de Nicolau Maquiavel.
Kissinger foi um grande pensador da política internacional e os seus escritos são de uma enorme inteligência. Contudo, a sua ação política nunca esteve ao nível da profundidade ideológica, e foi sempre entremeada por controvérsia, exatamente pelo facto de ser guiada apenas pela primazia do interesse norte-americano, com relativização das consequências para outros. Um dos momentos pouco felizes, e que muito diz a Portugal, foi quando deu luz verde à invasão de Timor porque entendia a Indonésia como um aliado prioritário.
Se recordarmos a voz de Henry Kissinger ao fim dos primeiros cem dias da invasão, lembrar-nos-emos que defendeu a necessidade de um acordo rápido, onde a Ucrânia deveria entregar uma parte do seu território, e assumir-se como uma região-tampão encostada à frente de expansão russa. Os meses seguintes, mercê de uma grande coragem dos ucranianos e dos seus dirigentes, viram o falhanço do avanço fulminante anunciado por Putin para chegar a Kiev em dois dias. Assistiram ao apogeu do grupo paramilitar Wagner na frente de batalha, e ao colapso com a morte de Yevgeny Prigozhin num controverso acidente de avião na Rússia. Mais tarde, a chegada de batalhões da Coreia do Norte, reforçou a ideia de dificuldades russas na progressão. Tal deixou florescer a ideia de que era possível derrotar a Rússia no seu terreno e recuperar a totalidade do território da Ucrânia. Esta ambição foi muito ampliada pela União Europeia que foi sempre fornecendo apoio militar, mas cujos soldados nunca pisaram o campo da batalha. E que contou sempre com o respaldo americano.
As imagens de Zelensky à saída da reunião na sala oval transmitem melhor do que ninguém a dureza da “política real”. Uma negociação onde estão ausentes princípios de solidariedade, ou valores, é necessariamente difícil, mas não tem de ser ríspida e agressiva. Imaginamos sempre o príncipe de Maquiavel a sussurrar em corredores luxuosos mal iluminados ou em discursos cheios de cinismo e afirmações de múltiplos sentidos. Contudo, os atuais Príncipes da Sala Oval têm um estilo negocial duro, e muitas vezes têm colocado o presidente da Ucrânia entre a espada e a parede. Para quem está diariamente na guerra, e vê morrer os seus às mãos de invasores, tal é de uma enorme violência. Ver os governos de Putin e Zelensky tratados ao mesmo nível não pode ser fácil de aceitar para quem conhece o regime russo e acompanhou o destino trágico da sua tímida oposição. Discutir a legitimidade democrática do presidente ucraniano e erguer regimes autocráticos à condição de parceiro, apenas serve para amesquinhar.
Um dos pontos de discórdia reside na proposta americana de exigir como contrapartida do apoio em material militar o acesso a recursos minerais da Ucrânia. Este tipo de acordo não é de forma alguma inédito no mundo em que vivemos porque, ao fim do dia, as necessidades básicas são as de alimentar as pessoas e a indústria. Uma aproximação “realista” do ponto de vista da administração americana para o fazer poderá sempre ser o de obter acesso a matérias-primas de qualquer um dos lados da guerra. Outro ponto de discórdia, e provavelmente o mais importante, repousa na exigência de cessar-fogo imediato, com a integração na Rússia dos territórios por esta ocupados. Os dois pontos estão interligados.
Nenhuma guerra se pode arrastar eternamente, e Zelensky tem de medir o que causa mais repúdio aos ucranianos, se uma cedência ao poder russo ou o cansaço de uma guerra que, para além da retórica política, não tem condições para ganhar na totalidade. A coragem ucraniana é quase inimaginável face ao inimigo e é clara a recusa de viver debaixo de um poder que não conhece limites. Mas o apoio financeiro e militar que a Ucrânia necessita é de grande dimensão, tanto para os Estados Unidos como para a Europa, e é excêntrico aos interesses estratégicos norte-americanos, muito centrados no Pacífico, goste-se ou não. Esse apoio nunca será ilimitado nem incondicional.
Tivesse Kissinger razão, ou não, o rio imparável do tempo já passou por essa ponte, e é da situação atual que temos de partir. Tivesse a União Europeia outro tipo de recursos de defesa, integrado já a sua capacidade militar, inclusivamente nuclear, e estabelecido mecanismos de coordenação e ação com as grandes democracias do mundo, seria esta uma situação em que poderia assumir um papel fundamental na história do mundo. E Portugal, apesar da sua reduzida dimensão, poderia também ter um papel, em ligação com países que lhe são próximos e que contam no xadrez mundial, como o Brasil, a India, ou mesmo Angola, mas sempre na perspetiva de cada um destes países estar fundamentalmente interessado em defender os seus próprios interesses. Todos temos de pensar um pouco como Kissinger lembrando-nos que Maquiavel tem má imprensa, mas tem uma parte da razão.
A situação de impasse a que se chegou pode ser uma oportunidade para a Europa. Não nos falta capacidade de inovação e de organização produtiva, nem temos qualquer limitação que provenha da dimensão, da capacidade técnico-científica ou industrial. Os dirigentes europeus têm de se mover rapidamente em duas direções complementares: para mais perto dos cidadãos, e para junto dos grandes decisores políticos do mundo. Sem medo de aumentar o escrutínio que os cidadãos devem ter dos organismos comunitários, e sem as peripécias ridículas de saber quem mais representa a Europa, se a Comissão se o Conselho. Sem radicalismos que aprofundem a divisão entre a Europa e os Estados Unidos.
A guerra da Ucrânia trava-se às portas da Europa. E temos razão para estar preocupados porque o papel da Comissão Europeia parece esgotado. Não tem sequer competências em matéria de segurança externa. Outros atores surgem para ocupar o espaço que a Comissão não pode nem consegue ocupar, sejam eles Emmanuel Macron, Giorgia Meloni, ou mesmo Keir Starmer. Talvez Friedrich Merz. Numa altura em que novas lideranças são tão necessárias, a leitura do livro Liderança de Kissinger, publicado aos noventa e nove anos de idade, é iluminante, mas não otimista.
Para já, terá a iniciativa quem for capaz de a ter, mas os países europeus com capacidade militar real devem coordenar-se ou, se já o estiverem a fazer, devem transmitir essa mensagem aos europeus. Falta agora aquele salto quântico que permitirá enterrar de vez os fantasmas do passado, que ainda dividem as nações europeias, e entrar numa nova era. Diz-se que a necessidade faz o engenho. Talvez a guerra faça a Europa.