O tempo mediático é, por definição, um tempo acelerado, mas há por vezes momentos de engulho em que se alonga, repisado como uma pintura ansiosa, martelado como uma censura ou um esconjuro. É o que se está a passar – diria que uma vez mais – com o nosso presidente Marcelo. À hora a que isto escrevo já ninguém deve ignorar a razão por que jornais, programas de rádio, televisões com o seu cortejo de opinadores e comentaristas, não desligam do tema da conversa proibida, dos propósitos descabelados, dos relatos de coração magoado do nosso primeiro magistrado e cabeça da nação.
Por que é que venho então eu voltar aqui ao assunto? Porque, dado o caminho já longo palmilhado por esta vida, me sinto impelida a acrescentar mais umas quantas pinceladas ao quadro um tanto abracadabrante que se vem delineando a propósito. Porque aqui também o tempo tem muito a ver: o tempo do juízo e o tempo do ajuizado. Que logo por acaso de ajuizado parece não ter nada ou já não ter nada. Ora eu conheço Marcelo. Não da intimidade mas naquela meia distância que permite conhecer socialmente bastante bem alguém que como ele se movimentou por várias ribaltas, com jeito e gosto. Conheci-o como aluno, o único que até hoje se licenciou na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa com a média de 19 valores. Conheci-o como professor, autor e conferencista, como deputado à Assembleia Constituinte, como dirigente partidário e, como quase todos nós, como comentador político. E também como algo que ninguém sabe ou lembra: como voluntário no acompanhamento hospitalar a doentes oncológicos em fase terminal. Assim, creio poder traçar dele um retrato-resumo tanto quanto possível verdadeiro: Marcelo é brilhante e gosta de brilhar; Marcelo tem um humor algo corrosivo e gosta de o usar; Marcelo é um trabalhador superdotado e gosta de o demonstrar; Marcelo é político até ao tutano e gosta de se aplicar, muitas vezes em jogos de alto risco, sem rede e em intrincadas e escorregadias artimanhas, e há quem diga que traiçoeiras e que só não espeta um punhal nas suas próprias costas porque é anatomicamente impossível. Para ele, Marcelo é “ele”. No dizer de João Miguel Tavares (in PÚBLICO, 30.04): ”Marcelo está perdido no labirinto da sua celebrada inteligência”[…] num “ensimesmamento totalmente focado na obsessão pelo “eu””.
Um “eu” que no entanto se mostrava, se desdobrava e multiplicava na instrução “cívico-política” da massa anónima dos portugueses seus eleitores a quem dedicadamente prometera servir. “É ele e eles, diz Ricardo Costa (in EXPRESSO, 3.05) depois de o proclamar: ”Marcelo, o Popular”. Já ninguém lhe tira esse cognome, haja o que houver, diga o que disser. […] os votos que o elegeram uma e duas vezes e que o elegeriam uma terceira, não são enquadráveis em nenhuma estrutura partidária, social ou institucional”. Marcelo é assim, por atos e/ou omissões, uma figura única e exclusiva, e por isso, nesse afã de estar-com, de comunicar, de explicar, de animar, de desminar, de exaltar, “diz coisas, incessantemente, […] alimenta conflitos inúteis” (João Miguel Tavares) com os seus próximos como com os seus antagonistas, num vai-e-vem de aproximações e recuos que fazem dele uma espécie de adolescente irrequieto em processo caótico de estabilização.
Ouçamos porém o que o próprio diz, no que particularmente se refere ao tema das reparações às ex-colónias (que foi ele que espontaneamente chamou à colação na tão vilipendiada entrevista com os jornalistas estrangeiros) e que, desta vez como em outras ocasiões mais, pretende “explicar”: “ Sempre achei que pedir desculpa é uma situação fácil […] assume-se a responsabilidade por aquilo que de bom e de mau houve no Império. Não podemos meter isto debaixo do tapete ou dentro da gaveta”. E, noutro passo: “[A reparação] é uma realidade que já começou há 50 anos.”, e deu como exemplo o perdão da dívida que as antigas colónias tinham para com Portugal ou o estatuto de mobilidade dos cidadãos dos PALOP. “Toda a nossa cooperação foi, durante 50 anos, além de uma construção do presente e do futuro, uma forma de reparação”, acentuou. Aparentemente tudo funciona com clareza no espírito de Marcelo. Não será por isso necessário enfatizar aquilo que a mim me parece, tal como a Henrique Monteiro no seu artigo do EXPRESSO de hoje, ser aquele momento crítico sinal de “uma profunda solidão, uma espécie de sensação depressiva, um impulso de romper (ou uma incapacidade de manter) as necessárias barreiras que cada um tem para não expressar a primeira coisa que lhe vem à cabeça, um pedido de ajuda…” Quem sabe?
Sem meios de o detetar com segurança, não sei aquilatar do quanto o infeliz episódio da infeliz entrevista possa ter prejudicado a figura de Marcelo enquanto Presidente da República. Perdeu a credibilidade? Perdeu a autoridade? Perdeu-se-lhe o respeito? Rimos? Apostrofamos? Desesperamos definitivamente? Ou damos-lhe, a ele também, a liberdade de errar, a liberdade de ser, sem peias nem grades, por umas quatro horas roubadas, aquele Marcelo agarotado e cínico, correndo sobre o fio da navalha só para ver no final quem é que ri melhor?
Como eu dizia no início, os tempos vão urgentes, e nós somos convidados a cavalgar a História e a ditar, de hoje para o futuro, meras apreciações em jeito de qualificações finais. Se com os factos isso é arriscado, para com as pessoas isso é simplesmente imoral. As transmissões, as transições, as transformações, as transgressões por mais sentidas que sejam nos dias do Presente, vão, com o tempo, derivando para outras tonalidades, mais inteligíveis ou mais esbatidas e não é raro que, a breve trecho, se descubram diluídas no esquecimento. Alguém – não me lembro quem – disse, a respeito ainda de Marcelo, que ele estava a destruir (atacar?) a Democracia, a desrespeitar a História. Ora, diz Pedro Norton colaborador do PÚBLICO (a 30.04.): ”A História é sempre, por mais seriedade intelectual que reconheçamos aos que se fazem seus intérpretes, marcada por subjetividades, mundivisões, mágoas, alegrias e preconceitos. Há ênfases, há omissões, há esquecimentos, há sublinhados, há, nos casos mais extremos, falsificações descaradas”. Assim é. Por isso, libertados os voos da indignação ou os sorrisos da benevolência, abandonemos o campo desta polémica e recolhamo-nos, com uma ligeira adstringência a marmelo na boca e um suspiro concorde no coração, aos campos da boa paz.
Lisboa, 3 de maio de 2024
* Título de uma das obras clássicas da literatura infantil, da autoria de Ruth Rocha, na edição de Salamandra, 1986.