Perante o panorama desanimador que se vai perspectivando para as próximas eleições presidenciais — e seguindo o exemplo estabelecido aqui no Observador em Abril deste ano por João Marques de Almeida no contexto das eleições europeias — venho também eu sugerir o nome de Miguel Morgado para um desafio eleitoral.

Tal como João Marques de Almeida, devo a título de disclaimer esclarecer que sou amigo do Miguel Morgado mas que não é essa amizade que me leva fazer esta sugestão, como procurarei explicar brevemente no resto deste artigo. Começo por relembrar e subscrever as razões apresentadas por João Marques de Almeida :

“Em primeiro lugar, tem qualidades políticas óbvias. Revela, quase sempre, bons instintos políticos, sabe argumentar, mas tem sobretudo duas qualidades que fazem muita falta ao PSD: coragem e convicções políticas. Miguel Morgado não é de direita por razões sociais ou familiares. É de direita porque acredita nos valores conservadores e liberais. Sabe explicar por que razão é de direita, por que razão as políticas de direita são as melhores para o país, depois de décadas de socialismo. Miguel Morgado tem uma preparação intelectual e doutrinal elevada. É isso que lhe dá convicções fortes. Em política, só convence quem tem convicções. (…) Num momento em que o debate político em Portugal voltou a ter dimensões ideológicas e doutrinais muito fortes, o PSD precisa de quem tenha substância intelectual. São esses que estão preparados para os combates políticos que se aproximam.”

E ninguém deve ter qualquer dúvida que o combate que se avizinha nas próximas eleições presidenciais será duro para a direita e potencialmente problemático para o PSD. A crença nas hostes do PSD de que Marques Mendes, que prepara de forma paciente e empenhada a sua candidatura presidencial há vários anos, possa fazer frente de forma eficaz ao Almirante Gouveia e Melo vai enfraquecendo a cada semana que passa e outros possíveis candidatos — como Pedro Santana Lopes, Rui Rio ou José Manuel Durão Barroso — possuem cada um deles limitações difíceis de ultrapassar neste contexto.

Acresce a tudo isto que Marcelo Rebelo de Sousa desgastou de forma acentuada o cargo de Presidente da República e que o apelo forte do Almirante Gouveia e Melo surge e é potenciado em boa parte precisamente pelo contraste pessoal e institucional com Marcelo. Como bem assinalou José Maria Matias :

“Ninguém sabe o que Gouveia e Melo pensa. Poucos sabem o que Gouveia e Melo fez. Alguns conhecerão o percurso de vida de Gouveia e Melo e pouco mais. O que sobra a Gouveia e Melo? A forma. A proximidade de Marcelo é substituída pelo formalismo de Gouveia e Melo. A degradação institucional promovida por Marcelo é substituída pelo prestígio (ou aparência de prestígio) da instituição militar. O popularucho simplório é trocado pela sobriedade necessária. O fenómeno Gouveia e Melo é uma derrota de todo o sistema partidário. De todo. Mas ninguém sai tão derrotado como Marcelo Rebelo de Sousa. O fenómeno Gouveia e Melo demonstra como pouco importa o conteúdo, mas tudo é forma. Passou-se das discussões ideológicas, das discussões económicas, para a discussão da aparência e da forma. Num mundo destes, só uma pessoa teria a credibilidade para derrotar a forma e ser Presidente da República: Pedro Passos Coelho.”

O problema é que Pedro Passos Coelho não parece mesmo estar interessado em percorrer esse caminho. E sem Passos a direita fica em larga medida como a esquerda, onde também não se perspectiva uma candidatura forte. Perante este cenário, o Almirante vai ganhando força. Mas a sua vitória não é inevitável. Desde logo porque muito depende das dinâmicas que se gerarem em campanha, mais ainda em eleições fortemente personalizadas como são as presidenciais.

Miguel Morgado, além da sua excelente preparação intelectual e das suas inegáveis capacidades oratórias e argumentativas, representaria também uma viragem geracional. Tem experiência política, amplo treino mediático e teria, arrisco dizer certamente, o apoio do próprio Pedro Passos Coelho. Além das suas qualidades pessoais e políticas, Morgado seria capaz de mobilizar não só o PSD mas também boa parte do eleitorado que votou IL e CH, unificando e mobilizando o espaço à direita do PS – o que será fundamental para fazer frente a Gouveia e Melo.

É certo que tem níveis comparativamente baixos de notoriedade e que geraria bastantes anticorpos à esquerda (ainda que tenha provavelmente à partida menores níveis de rejeição do que Passos Coelho), mas uma campanha presidencial proporciona amplas oportunidades para alargar o reconhecimento público. E, numa eventual segunda volta, creio que Miguel Morgado poderia recolher apoio também entre algum eleitorado centrista e até de centro-esquerda, particularmente se o seu opositor fosse Gouveia e Melo.

Será difícil reunir condições — a começar pela disponibilidade do próprio — para esta candidatura, mas creio que tanto o PSD como a direita precisam de pensar fora da caixa relativamente às próximas presidenciais. E neste contexto uma candidatura de Miguel Morgado deveria pelo menos ser seriamente equacionada.