Rádio Observador

Vladimir Putin

Milagres e curas através da televisão /premium

Autor

As conversas de Putin com o povo fazem lembrar as sessões de Kaspirovski nos anos de 1990, quando o curandeiro tratava de todas as doenças possíveis através dos ecrãs. Não havia maleita que resistisse

O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, parece ter inventado uma forma milagrosa de resolver os problemas do seu país, através da sua conversa televisiva com o povo. Resolve todos os problemas nas mais diversas esferas, nomeadamente o fornecimento de água canalizada a remotas aldeias russas, a recolha do lixo ou o salário dos bombeiros.

É verdade que os russos sofrem da mesma doença do que os portuguesas: “sebastianismo”, e ainda há muitos que acreditam que o Czar (Presidente) não resolve os problemas do povo porque os malvados boiardos (funcionários públicos) os escondem. Por isso, o número de perguntas enviado ao dirigente russo bateu mais um histórico recorde: mais de dois milhões.

Putin respondeu, em quatro horas e dez minutos, a 85 perguntas. Mas, antes disso, repetiu que o país avança no sentido certo e que, agora, é que os programas nacionais de saúde, educação, inovação, transportes, desporto, etc., que deverão ser realizados até 2024 e onde serão gastos biliões de rublos, irão ser o motor do desenvolvimento económico e social da Rússia.

Foram muitas as queixas sobre a falta de medicamentos comparticipados pelo Estado, mas as explicações foram rapidamente encontradas por Vladimir Putin, nomeadamente:  “acontece que os armazéns estão cheios de medicamentos, mas não chegam ao consumidor por falta de troca de informação”. A ministra da Saúde Veronika Skvortsova foi chamada, por vídeo-conferência, a responder pela falta de medicamentos e revelou: “a quantidade de medicamentos aumentou consideravelmente. As transferências foram feitas na totalidade. Foram detectadas 30 regiões onde existem sérios problemas de logística”.

Tiveram mais sorte as dezenas de golfinhos e baleias do Extremo Oriente russo que foram libertados devido à intervenção do dirigente russo, o mesmo se pode dizer dos habitantes de uma remota aldeia russa que passarão a ter água potável porque um dos seus habitantes conseguiu chegar à fala com o Presidente.

Refugiados ucranianos queixaram-se a Putin de que estavam com dificuldades em receber a cidadania russa, mas as autoridades locais surgiram logo para dizer que o problema, que já se estende há anos, iria ser resolvido.

Foram muitas as queixas contra a falta de médicos especialistas e as filas nos centros de saúde, mas quando os correspondentes da televisão russa chegavam ao local, verificavam que não havia filas. Um bombeiro de Kaliningrado queixou-se dos baixos salários e o governador dessa região apressou-se a prometer que iria resolver o problema. Pelos vistos, os governadores de todas as repúblicas e regiões da Federação da Rússia estavam atentos às palavras do Presidente.

Vladimir Putin não dedicou muito tempo à política externa, mas não perdeu oportunidade de mandar recados aos Estados Unidos: “Vemos o que acontece na política interna,[Donald Trump] enfrenta um grande número de limitações… Além disso, ele agora irá olhar sempre para as exigências da campanha eleitoral. A elite americana especula nas relações russo-americanas e inventa todas as falsidades… Por isso, logo que os nossos colegas estejam prontos, responderemos a isso da mesma forma, tanto mais quando há temas para conversar: segurança internacional, desarmamento, estabelecimento de um diálogo normal”.

Quanto a uma potencial guerra entre os Estados Unidos e o Irão, Putin considera que ela terá “consequências catastróficas”.

À pergunta: “porque é que a TV mostra tantas armas novas, para que guerra nos preparam?”, Putin respondeu que a Rússia está no sétimo lugar quanto aos gastos com armas, frisando que à frente dela se encontram os Estados Unidos, China, Arábia Saudita, Grã-Bretanha, França e Japão. E acrescentou: “Somos a única grande potência militar que reduz as despesas com armamentos. Em 2019, gastamos menos de 3% em armamentos, em 2021, gastaremos cerca de 2,8% do PIB. Nenhum grande país faz isso. Mas o que é curioso é que, não obstante as baixas despesas militares, garantimos não só a paridade, mas estamos dois a três passos à frente”.  Não será este um verdadeiro milagre?

As conversas de Vladimir Putin com o povo trazem à memória as sessões de Anatoli Kaspirovski, nos anos de 1990, quando este curandeiro tratava de todas as doenças possíveis e imaginárias através dos ecrãs de televisão. Não havia maleita que resistisse.

A dado momento, o dirigente russo reconheceu que, às vezes, tem vergonha e contou a história de uma mulher que, durante uma das suas visitas pelo país, se atirou aos pés dele para lhe entregar uma nota escrita. Putin prometeu que a iria ler e entregou-a a um dos assessores. A nota perdeu-se algures e ele continua a ter vergonha.  Por isso, diz que trata de todos os pedidos pessoalmente. Há 19 anos no Kremlin e os pedidos não param de chegar. Por conseguinte, talvez decida ficar à frente da Rússia depois de 2024, para cumprir aquilo que até agora não fez.

P.S. Após a “conversa com o povo”, Vladimir Putin comentou as acusações da Comissão Internacional de Investigação que culpa três russos e um ucraniano do derrube do avião civil malaio nos céus da Ucrânia, em 2014. A resposta do Presidente russo não surpreendeu: “O que foi apresentado como provas de responsabilidade da Rússia, não nos convence absolutamente. Acreditamos que não há provas”. Nem haverá, até que Putin saia do Kremlin. Repete-se a mesma história do avião civil sul-coreano, derrubado pela aviação militar soviética em 1983. A verdade foi revelada oito anos depois, após a da queda da URSS.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Rússia

A síndrome de Istambul chegou a Moscovo /premium

José Milhazes
118

O Kremlin teria um sério teste à sua popularidade se permitisse a realização de eleições municipais em Moscovo e do governador de São Petersburgo limpas e transparentes. Mas isso não deverá acontecer.

Rússia

A hipocrisia da política de sanções /premium

José Milhazes
403

A Europa perdoou à Rússia a agressão à Ucrânia, a invasão da Geórgia em 2018 e dá mais uma prova de “misericórdia” em 2019. A que se deverá este acto que traz à memória o famigerado Acordo de Munique?

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)