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Nesses vários anos trabalhando com questões de igualdade de gênero como advogada e como escritora, me canso de ouvir incontáveis vezes o mesmo erro: pessoas que dizem que não são feministas, mas sim a favor da igualdade entre homens e mulheres. Vamos lá, repitam comigo: feminismo não é o contrário do machismo. Feminismo não é o contrário do machismo.

O machismo prega a superioridade masculina. O feminismo não prega a  superioridade feminina, mas sim a igualdade de gênero. Simples assim. O Dicionário Houaiss define feminismo como a “teoria que sustenta a igualdade política, social e econômica de ambos os sexos.” Ou seja, qualquer pessoa que acredite em coisas chocantes como salários iguais para funções iguais ou igual acesso aos cargos públicos, é, inevitavelmente, uma pessoa feminista.

Fico realmente chocada que em 2019, gente razoavelmente instruída ainda associe feminismo ao velho estereótipo da mulher furiosa, com raiva dos homens e do feminino em si mesmo — que, diga-se de passagem, sempre esteve errado.

A questão central é: feminismo não tem a ver apenas com igualdade. Feminismo, fundamentalmente, tem a ver com liberdade. Com o direito de escolha de cada mulher. Ser mãe ou não ser. Ser casada ou não ser. Ser “feminina” ou não ser. Dedicar-se muito à própria carreira ou não. O feminismo acolhe a mulher que não quer ter filhos nem marido, assim como acolhe a mulher que quer ser mãe e esposa em tempo integral- desde que elas tenham feito essa escolha livremente, usufruindo do seu direito de escolha, que é algo recente e ainda muito limitado.

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Acho realmente inacreditável que haja mulheres que estudam, que trabalham, que votam, que se filiam a partidos, que escrevem em jornais, que podem se divorciar quando quiserem e que, ainda assim, se digam “anti-feministas”. Quem conquistou todos esses direitos para vocês? O Mickey Mouse? Minha querida, se você tem uma carreira consolidada e espaço para se manifestar, você está usufruindo de conquistas feministas. Caso contrário você ainda estaria fritando croquetes em casa.

E não, não há nenhum problema em fritar croquetes. Nem em preparar um jantar para o seu marido. Nem em passar batom cor de rosa. Assim como não há nenhum problema em não gostar de cozinhar. Ou em não ter marido. Ou em não usar maquiagem. O feminismo viabiliza e respeita tudo isso. O problema, minha cara, é achar que a vida que você escolheu para você é a vida certa para todas as mulheres. O problema é achar que a sua realidade é a realidade de todo mundo. E esquecer, não apenas, que o feminismo já fez muito por nós, mas ignorar também que ele ainda tem muito a fazer por outras mulheres, especialmente as menos brancas, menos ocidentais e menos privilegidas do que nós. O problema é a visão curta, a falta de informação e a falta de profundidade. Isso é que é mesmo lamentável.