Estou há dias à espera dos últimos volte-faces das negociações entre o Syriza e a Zona Euro (ZE) a fim de escrever o que penso a este respeito. Vários outros títulos me ocorreram: «A atracção pelo abismo», «A vertigem do caos» ou simplesmente «Quanto pior, melhor!», que é a maneira de pensar típica assumida por todas as formas de oposição às medidas de austeridade fiscal e de ajustamento das políticas públicas perante a deriva despesista de vários governos da UE, entre as quais as do governo Sócrates (2005-2011), perante a grande recessão desencadeada nos USA em 2007.

Subitamente sou surpreendido, como toda a gente, pelo anúncio inopinado de um referendo ad-hoc destinado, basicamente, a tentar ilibar o Syriza do ónus daquilo que tem estado a suceder na Grécia desde o dia em que aquele partido de origem estalinista (o PC grego dito do «interior») chegou ao poder. E só lá chegou graças à adesão de grande parte do eleitorado do PS local por causa das medidas da troika impostas ao duo oligárquico que alternava no governo desde o fim da ditadura militar… Seja qual for o desenlace deste referendo manipulado desde o início, quem perderá de certeza será a esmagadora maioria da população grega, pois mesmo no caso de a maioria votar SIM, o desfecho final da crise política provocada pelo Syriza estará longe e a Grécia terá de pagar um preço muito alto.

Perante mais este truque de prestidigitação que a dupla Tsipras-Varoufakis tem vindo a produzir como pseudo-negociação, ficou claro para todas as pessoas minimamente atentas, lá como cá, que o actual governo grego não só não pretende chegar a qualquer acordo, como terá decidido, desde sempre, sair do euro, isolar a Grécia ainda mais do que já estava, se possível rebentar com a moeda única, pelo menos com Portugal e eventualmente outros países do ajustamento, assestando desse modo um golpe de proporções inéditas na UE, até pelas suas manifestas dimensões geopolíticas.

Se para a generalidade das pessoas as implicações geopolíticas da crise aberta pelo Syriza são deliberadamente anti-ocidentais, chamemos-lhe assim, há todavia quem as apelide candidamente de anti-capitalistas ou, mais subtilmente ainda, como sendo da responsabilidade da chamada direita neo-liberal, a qual, neste caso, seriam os 18 governos da zona euro. Ora, é isto que continua a suceder, desde o primeiro minuto até este instante, com esses inesperados admiradores do Syriza que se revelaram, sofisticamente, António Costa e a direcção do PS!

Acabei assim por optar por um título bíblico que ilustra claramente o que o Syriza já fez na Grécia e tenciona continuar a fazer: «Morra Sansão e todos os que aqui estão», pois o matador não sobreviverá por muito tempo às suas vítimas! É deste tipo de pulsão niilista que Paulo Tunhas, sem mencionar a Grécia, nos falava aqui mesmo, e alguns dos comentários desencadeados só confirmam o grau de odium de que se reveste hoje a discussão política.

Decididamente, no sul da Europa intervencionada pela «troika», o niilismo das representações míticas da «revolução» ou, mais modestamente, do «estado social», próprias de uma esquerda eleitoralmente derrotada na UE, mistura-se perigosamente com o ultra-nacionalismo, com o qual o Syriza se aliou, não à toa, dando assim corpo à junção dos soberanismos de direita e de esquerda contra a Europa unida pela democracia e pela economia liberal há perto de 60 anos.

A moeda única desencadeou desde o início a feroz oposição da Bolsa de Londres e de Wall Street, mas na realidade ela não faz mais do que dar expressão financeira a um projecto, afinal, menos quimérico do que se julga, como se depreende das últimas notícias dos USA, desde a insolvência de Porto Rico  até à «gentrificação» de Detroit. Ambos os exemplos provam como o dólar único em vigor no continente norte-americano coexiste com a morte e a ressurreição locais, de acordo com a teoria já relativamente antiga da austeridade fiscal, que estamos agora a descobrir.

E isso é cada vez mais frustrante para as esquerdas saudosistas da receita keynesiana, espicaçadas agora pelo mantra da «reestruturação da dívida», mas os limites da receita são bem conhecidos 80 anos depois: a teoria de Keynes era explicitamente concebida para uma sociedade fechada; ora, os USA liquidaram o tratado de Bretton Woods há quase 50 anos (1971) e puseram a funcionar a máquina imparável da globalização; entretanto, mercê do welfare state, a cuja ideia ele apenas dedicara umas linhas, o Estado crescia na Europa acima de 50% do PIB…

Uma coisa está a demonstrar a crise agónica do keynesianismo à moda grega: como escrevi há tempos, sair do euro é andar décadas para trás e recuar do centro para a periferia mais remota. Na Grécia como em Portugal ou em Espanha. O PS ou supera os seus complexos esquerdizantes, consecutivos à dupla débacle do socratismo, ou arrisca-se, como o PASOK e até o PSOE, a ser varrido pelos velhos e novos comunismos devido ao odioso niilismo político que estes introduziram nas sociedades europeias meridionais.