Escrevo em Madrid, onde um corrupto radical se debate para não sair da Moncloa e onde cheguei na quinta-feira para assistir a um espectáculos do (desculpem a familiaridade) Morrissey. Nos espectáculos recentes, Morrissey costuma falar do que sucedeu num espectáculo realizado na sua Manchester natal, a 22 de Maio de 2017. Nessa data, após a actuação de uma cançonetista chamada Ariana Grande, um mancuniano filho de pais sírios, Salman Abedi, explodiu uma traquitana que matou 22 pessoas e feriu mais de mil. O sr. Abedi, que estudou na universidade e era um rapaz “normal” para alguns, tinha um longo e vistoso historial de “radicalismo”, que as autoridades conheciam e desprezaram. Dias depois do atentado, realizou-se uma vigília pelas vítimas numa praça local. Uma das participantes principiou a cantar “Don’t Look Back in Anger”, dos Oasis. Aos poucos, a multidão seguiu a deixa. O vídeo do momento espalhou-se pela internet e, com a ajuda dos “media” tradicionais, a musiquinha tornou-se um símbolo do que se designou por, cito, “a recusa em ceder ao medo ou à divisão”. “Don’t Look Back in Anger” significa “não guardes rancor”.

Em 2020, Morrissey gravou em Los Angeles o disco “Bonfire of Teenagers”, cujo tema-título, sobre o referido crime, inclui a seguinte estrofe: “A fogueira de adolescentes/Que brilha tão alta no céu do noroeste de Maio/Oh, devias tê-la visto/Partir para a arena/Apenas para ser vaporizada”. E o refrão: “E os tontos cantam/‘Não guardes rancor’/E os idiotas balançam e dizem/‘Não guardes rancor’/Posso garantir-vos/Que guardarei rancor/Até o dia da minha morte”. O disco foi anunciado em 2021. Em 2025, ainda não existe e não se sabe quando, e se, existirá. Aliás, Morrissey não edita um álbum desde 2020, época em que a associação ao movimento For Britain, as críticas à gestão da Covid e os sucessivos louvores a Israel agravaram a sua aura de proscrito. Uma canção, por acaso arrepiante, acerca do horror perpetrado a pretexto do Islão, além de comentários avulsos e de orientação similar, consagrou o “cancelamento”. Do que se vê nos concertos que distribui pelos dois hemisférios e estão no YouTube, Morrissey tem público. O que Morrissey não tem é editora que arrisque a conotação com ele, e um jornalismo que não se limite a tratá-lo de “racista” para baixo.

Não vou desenvolver aqui o que Morrissey, então nos The Smiths, representou para a cabecinha de um certo garoto de 14 anos. Na idade em que comecei a perceber que as canções podiam dizer coisas, a iniciação dera-se com Leonard Cohen, Jacques Brel, Bob Dylan, Lou Reed e os inícios de David Byrne nos Talking Heads, tudo gente de gerações anteriores que cantava para adultos. Em 1983, Morrissey era legal e ligeiramente adulto mas dirigia-se a fedelhos, fedelhos com acne que liam nas letras dele uma espécie de diário premonitório e colectivo, um roteiro das angústias da primeira juventude, uma cartilha enfim. No meio do ridículo “pop” alternativo britânico, era estranho descobrir quem dissesse frases com sentido, graça e acidez. Morrissey dizia-as abundantemente nas canções e nas entrevistas, o que cedo lhe valeu a preguiçosa etiqueta de “polémico”. Morrissey é “polémico” há décadas, mas só recentemente a virtude lhe saiu cara.

Fora do infantilizado universo da imprensa musical londrina, que há muito marginaliza a dissidência, só para aí em 2017 ou 2018 é que as opiniões públicas de Morrissey, outrora um maná para os “media” famintos de “controvérsia”, o afastaram de vez do convívio e do apreço das criaturas “de bem”. Morrissey não mudou, o mundo sim. O mundo mudou a ponto de Morrissey ser hoje o exacto oposto do que é tolerável nesse mundo, um mundo em que mentecaptos e infiltrados nos pedem para não guardar rancor de assassinos. O mundo mudou tanto que já não é apenas alguém como Morrissey que é polémico: agora, polémicos somos todos ou quase todos. O Reino Unido é apenas um exemplo, embora particularmente brutal, dessa mudança.

Dúvidas? Não tenham dúvidas: tenham medo. O Prevent, criado em 2003, é um programa governamental que procura intervir precocemente para lidar com os “factores ideológicos e pessoais” que podem levar alguém ao terrorismo. Talvez porque não esteja a ser eficaz na prevenção do terrorismo propriamente dito, talvez porque nem haja grande interesse em prevenir o terrorismo propriamente dito, o governo de lá decidiu alargar a definição ao terrorismo imaginário. Doravante, o Prevent passou a achar que as preocupações com a imigração constituem uma “potencial ideologia terrorista”. Ou seja, se um sujeito não aprecia as consequências das fronteiras escancaradas, o sujeito é um terrorista em formação. Se um sujeito receia a desagregação do famoso “tecido social”, o sujeito é um terrorista encartado. Se um sujeito  se aflige com o terrorismo, o sujeito é tratado abaixo de bombista, e sem sequer direito a cantilenas de “harmonia” e “perdão”.

Na verdade, o UK, que em nome da “harmonia” permite que redes de violadores estrangeiros fiquem largamente impunes, já prendia anualmente dois ou três mil desgraçados por delito de opinião (ou, cito, “discurso de ódio”), com centenas de julgamentos e condenações. A partir do momento em que o poder político equipara dois terços da população a puros homicidas, não tarda haverá uma dramática sobrelotação das cadeias. E uma declaração de guerra ao próprio povo por parte da democracia fundadora do parlamentarismo ocidental. Não admira o estado do Ocidente.

Entretanto, Morrissey imitou os que o cancelam e cancelou-se a si mesmo: não houve concerto em Madrid. Por se calar, e nunca por falar, devia ser preso.