Aconteceu e adivinhava-se que podia acontecer, mesmo que não se quisesse acreditar. O Chega apareceu a semana passada pela primeira vez à frente numa sondagem. A amostra era pequena, a margem para o PSD mínima, mas há sempre uma primeira vez e a primeira vez já aconteceu. E aconteceu onde durante anos e anos se disse que nunca poderia acontecer, este nosso querido Portugal. E aconteceu neste mesmo tempo em que o partido de Nigel Farage, o Reform, lidera as sondagens no Reino Unido, aí com enorme vantagem. O mesmo se passa com a União Nacional de Marine Le Pen em França. Na Alemanha também já aconteceu a AfD ultrapassar em estudos de opinião os cristãos-democratas que lideram o Governo. E em Itália Giorgia Meloni é primeira-ministra e não tem sofrido desgaste político.

Podia continuar mas acho que não vale a pena: para onde quer que olhemos o panorama político é semelhante, os partidos tradicionais estão em dificuldades, para usar uma expressão clássica, “o centro não está a aguentar”.

Há muitas razões para isso estar a acontecer, porventura a mais importante de todas é a insatisfação com a forma como as elites tradicionais se têm mostrado incapazes de corresponder às expectativas que elas mesmo criaram, ou por estarem a presidir ao que uma parte crescente do eleitorado percebe como sendo um período de crise e decadência relativa. Um período sem fim à vista. Mas mesmo que possamos convergir nesta leitura, há pelo menos outro ponto em que deveríamos estar de acordo: não é possível continuar a olhar de forma ora displicente, ora arrogante, ora falsamente piedosa para as inquietações dos milhões de eleitores que têm vindo a engrossar as fileiras deste tipo de partidos, partidos que também estão longe de ter uma linha política clara e coerente. Ou, por outras palavras, talvez seja tempo de acabar com a sobranceria e a cegueira voluntária.

Infelizmente estes últimos dias deram-nos mais alguns exemplos de como essa atitude das elites políticas e dos órgãos de informação tradicionais não parece querer mudar. Deixem-me dar-vos três exemplos.

O primeiro é o da manifestação que juntou em Londres, este sábado, uma multidão como nunca tinha sido vista em eventos convocados pela direita radical. Não sei quantas pessoas estiveram presentes, mas pelas imagens aéreas que pude ver no site de um dos jornais britânicos mais à esquerda, o The Guardian, custa-me a crer que tenham estado presentes apenas as 110 mil pessoas que a polícia anunciou. Vejam com os vossos olhos e avaliem, eu não arrisco estimativas.

Esta manifestação foi convocada por um personagem detestável, um antigo hooligan conhecido pelo seu pseudónimo, Tommy Robinson, mas transformou-se num mar de bandeiras inglesas e britânicas que não permite dúvidas: a forma como algumas autoridades locais (e não só) retiraram as bandeiras nacionais (sobretudo a Union Jack britânica e da cruz de São Jorge inglesa) que começaram a aparecer em locais públicos onde antes tinham tolerado a presença de bandeiras palestinianas gerou uma revolta sem precedentes. Mais: uma revolta que só se compreende por se estar a generalizar no Reino Unido a percepção de que as autoridades actuam com dois pesos e duas medidas, que deixaram de ser imparciais — no fundo, que são cada vez mais woke. E se a crise das bandeiras foi o pretexto próximo, o pano de fundo é o fracasso repetido de sucessivos governos, primeiro o conservador, agora o trabalhista, em conterem a imigração ilegal.

Contudo, apesar de dimensão inédita da manifestação, a generalidade dos títulos da imprensa britânica e de todo o mundo focou-se nos confrontos com a polícia, confrontos que aconteceram e foram graves, mas que infelizmente acontecem em muitas outras manifestações no Reino Unido sem que sejam usados para obliterar o que era realmente novo: a dimensão gigantesca do protesto. (E confrontos bem menos graves do que os ocorridos ontem em Madrid, estes provocados por manifestantes pró-palestinianos.)

Esta cegueira premeditada ajuda a explicar porque é que os órgãos de informação tradicionais estão a perder a confiança dos eleitorados. Esta cegueira é mais um sintoma do divórcio das elites face a certas realidades.

A segunda história que me chamou a atenção passou-se nos Países Baixos e já tem umas semanas. Trata-se de um crime que não será facilmente esquecido: a 20 de Agosto uma jovem que regressava a casa de bicicleta depois de uma noite passada com amigos no centro de Amesterdão começou a ligar para polícia a dizer que se sentia ameaçada, depois calou-se e horas depois foi encontrada brutalmente assassinada. Menos de 24 horas depois a polícia já tinha localizado e prendido o eventual assassino: um imigrante ilegal de 22 anos, suspeito também de outros casos de agressão sexual.

Inicialmente os órgãos de informação holandeses relataram o crime sem omitir qualquer facto, incluindo a naturalidade do agressor, mas rapidamente mudaram de agulha e, para evitarem debater as políticas de acolhimento e asilo do país, passaram a debater a violência de género e o risco que as mulheres correm quando saem à noite e circulam em ruas mal iluminadas. Percebe-se: em vez de falarem de um tema politicamente incómodo, jornalistas, comentadores e feministas passaram a debater um tema aparentemente muito mais consensual.

Suspeito que mesmo assim muitos eleitores vão continuar a lembrar-se do crime protagonizado por um imigrante ilegal (e que estava viver num abrigo pago pelas autoridades) e que isso influenciará o resultado das próximas eleições marcadas para 29 de Outubro, em que o favorito já é partido anti-imigração de Geert Wilders. É que, de acordo com as estatísticas oficiais (os Países Baixos têm boas e completas estatísticas, ao contrário de Portugal), em 2022 um terço dos crimes de ofensas sexuais teve como protagonista um imigrante de origem não-ocidental, o que significa que esses imigrantes têm uma probabilidade quatro vezes maior de protagonizar crimes sexuais do que um homem nascido no país.

Suspeito também que não será o proselitismo dominante na comunicação social tradicional que mudará este estado das coisas — e este estado de espírito.

O terceiro exemplo relaciona-se – não podia deixar de ser – com algumas reacções ao assassinato de Charlie Kirk. Não me surpreendeu que, em muitos campus universitários, nos Estados Unidos e não só, a sua morte tenha sido celebrada sem vergonha – não me surpreende até que o presidente eleito do clube de discussão dos estudantes de Oxford enfrente agora contestação por também ter feito comentários desagradáveis sobre a ataque a alguém com quem tinha debatido ainda há poucos meses. Infelizmente não posso dizer o mesmo sobre o modo como alguns órgãos de informação noticiaram o caso, com destaque para a forma como o fez a generalidade de imprensa alemã. O caso limite foi o do principal jornal de Berlim, o Der Tagesspiegel, que colocou uma fotografia de Charlie Kirk a ocupar todo o topo da primeira página com o seguinte título: “Tod eines brandstifter”, isto é, “Morte de um incendiário” (sub-texto: os incendiários merecem morrer).

De uma forma geral, na Alemanha mas não só, também em Portugal, Charlie Kirk foi por regra apresentado como sendo um radical extremista por muitos órgãos de informação, e não como aquilo que era, um orador conservador que gostava de debater abertamente as suas ideias. Confesso que não conhecia Charlie Kirk e que, depois da sua morte, fiz o que creio que muitos fizeram: googlei e vi alguns dos seus vídeos. Não preciso de concordar com muitas das suas ideias para elogiar a sua atitude e a sua frontalidade, pelo que imagino que o mesmo terá acontecido a muitos que agora o descobriram – e que perceberam que ele não cabe na caricatura preconceituosa e sectária de retratos como o daquele título alemão.

Estes três exemplos devem fazer-nos reflectir. Quando ouvimos muitas vezes dizer que os extremismos crescem porque se alimentam das redes sociais, da “bolha das redes sociais”, ouvimo-lo porque isso é confortável para os que vivem noutras bolhas onde muitas das inquietações desses eleitores são realidades distantes. Pior: vivem em bolhas que olham para estes novos movimentos com preconceito e nojo, sem qualquer intenção de procurarem perceber o mundo que os torna possíveis. Pelo contrário, achando que o que importa é um proselitismo militante, que alivia a consciência. Mentira: apenas agrava o divórcio entre as elites da bolha bem-pensante e sectores crescentes da população.

´É por estas e por outras que se nunca acreditei que André Ventura pudesse um dia estar em condições de ser primeiro-ministro por o seu partido ser o preferido dos portugueses, hoje já não digo nada.