Muito se tem falado sobre a necessidade de votar contra alguém ou alguma coisa. Tenho dúvidas quanto a esta linha de pensamento. Não voto em André Ventura, mas não voto contra as pessoas que votam em André Ventura, voto sabendo que elas querem a mesma coisa que eu: uma vida melhor. Voto sabendo que gostaria que estas pessoas não acreditassem que André Ventura é o único que as pode salvar. Voto com a convicção de que, juntos, ainda havemos de nos salvar no futuro. Se voto contra alguma coisa, é contra a possibilidade de um dia acordar num país onde se fuzilam vizinhos, amigos, família, por serem de “extrema-esquerda” ou de “extrema-direita”. Pode parecer exagero, mas já aconteceu no passado. Não fez ainda um século desde que morreram mais de 1 milhão de pessoas na Guerra Civil Espanhola. Acho que é um erro tomar como certo que não voltará a acontecer, que não acontecerá aqui.

André Ventura quer chegar ao poder para “mudar o sistema”, mas a que preço? Porque é que Ventura apela ao nosso desejo de extinção do espaço de existência do outro? Não devíamos ser nós, povo, uns contra os outros. Devíamos ser nós, povo, contra aqueles que nos viram uns contra os outros. André Ventura não promete diretamente uma ditadura, mas diz que eram precisos “três Salazares”. Acho que só gosta de ditadores quem nunca conheceu o ditador que “vem atrás de si”. Os ditadores calham à sorte e nunca sabemos quando vai aparecer um que não gosta de nós ou dos nossos. Como diz o célebre poema de Bertold Brecht, “Primeiro levaram os negros, mas eu não me importei com isso, eu não era negro (…) depois agarraram uns desempregados, mas como tenho emprego, também não me importei, agora levam-me a mim, mas já é tarde (…)”.

Hoje fui buscar à estante “As origens do Totalitarismo”. Hannah Arendt chama à atenção para algo fascinante: a solidão como antecedente real das sociedades em decadência. Diz assim: “O domínio totalitário (…) baseia-se na solidão, na experiência de não se pertencer ao Mundo, que é uma das mais radicais e desesperadas experiências que o Homem pode ter.” Acrescenta ainda “(…) o terror só pode reinar absolutamente sobre homens que se isolam uns contra os outros(…) uma das preocupações fundamentais de todo o governo tirânico é aproveitar esse isolamento.”

Está na voga a dicotomia do “ou…ou” — “ou eles ou nós”, como se a vida pudesse ser algo que se conquista ao outro, como a terra é conquistada ao mar. Esta luta permanente trata o povo como soldados em campo de batalha, constantemente aliciados para derrotar os soldados em frente, tão desgraçados como eles, ambos alienados e cegos perante os que os lideram, da segurança da retaguarda.

Arendt refere que “o que as ideologias totalitárias visam não é a transformação do mundo exterior (…), mas a transformação da própria natureza humana.” André Ventura não mostrou interesse em condenar o grupo neonazi “1143”, agora alvo de uma megaoperação da PJ, e deixa-nos dúvidas sobre a legitimidade que concebe a movimentos como este.

Diz a filósofa que “as soluções totalitárias podem muito bem sobreviver à queda dos regimes totalitários(…) sempre que pareça impossível aliviar a miséria política, social ou económica”. Os líderes totalitários não pretendem libertar as pessoas da miséria, mas sim fazê-las acreditar que são os únicos capazes de o fazer. Quando conseguem o apoio do povo, não raras vezes teve de se começar tudo de novo.

Hannah Arendt acredita que “o súbdito ideal do governo totalitário não é o nazi convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe a diferença entre o facto e a ficção”. Se já era assim há mais de meio século, como será agora que os vídeos das redes sociais, partilhados pelos candidatos, definem mais a visão do mundo do que a própria experiência individual?

Arendt compara a dialética a um “poderoso tentáculo” que “parece ser o último apoio num mundo onde ninguém merece confiança e onde não se pode contar com coisa alguma.”  Os líderes totalitários semeiam esta desconfiança, bradam a todos os cantos que este é um mundo onde ninguém dá a mão a ninguém, mas a verdade é que são eles que, chegados ao poder, nos atam os pulsos.

Desconfio de quem utiliza o ódio mal disfarçado por certos grupos, raças, religiões, para captar apoio. E ninguém nos promete que, um dia, não seja o nosso grupo no lado dos indesejados. Se isto é um exagero? Pode ser ou não. Tudo o que acabou muito mal começou, um dia, por parecer mais ou menos inofensivo. Espero que não caminhemos para o nosso momento “ninguém diria que podia acabar assim”.