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Fidel Castro

Ninguém lava a história como os comunistas

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Décadas de romantismo à volta de Fidel Castro tornaram menos óbvio para o mundo que ele não passou de um ditador como outros. Eis a demonstração de força da máquina comunista de revisão da história.

Morreu um grande líder. Um verdadeiro patriota, cuja razão de viver foi sempre o bem-estar do seu povo. Um homem que se dedicou inteiramente à defesa da liberdade. Um herói popular, que libertou Cuba de uma ditadura cruel. Um político inspirador de causas justas e aliado das lutas das forças progressistas, que estabeleceu o exemplo. Um símbolo da paz cuja memória se deve honrar prosseguindo a luta pelos ideais que defendia. Não, isto não é para rir nem é brincadeira de mau gosto. É mesmo muito a sério: todos estes louvores constam do comunicado do PCP que, em nome dos comunistas portugueses, reagiu à morte de Fidel Castro.

Poder-se-ia implicar com o insólito alheamento da realidade dos comunistas – como se, efectivamente, a realidade tivesse alguma importância para os comunistas. E replicar que Fidel Castro foi um ditador. Que governou a sua ilha com mão de ferro durante décadas e a entregou ao seu irmão para prosseguir o trabalho. Que matou adversários políticos, calou a oposição e suprimiu a liberdade de expressão, de associação e de reunião. Que derrotou uma ditadura cruel para a substituir por outra igualmente cruel e mais duradoura. Que forçou milhares ao exílio. Que perseguiu homossexuais e exibiu completa intolerância pela diversidade social. Que se subjugou aos interesses da URSS, em vez de aos dos cubanos. Que foi protagonista dos mais terríveis atropelos aos direitos humanos. E que todas as suas vítimas merecem muito mais do que serem arrumadas numa obscura nota de rodapé.

Como dizia, poder-se-ia implicar com o insólito alheamento da realidade dos comunistas, mas isso seria não entender a força da sua persistência em reescrever a história. Fazem-no agora com Fidel Castro como fizeram sempre em relação ao negrume dos regimes comunistas. Para o PCP, o centenário da revolução bolchevique serve de pretexto para elogiar as conquistas da União Soviética em termos de avanços sociais e económicos – menorizando os genocídios e o rasto de sangue de milhões de mortos que a máquina repressiva do regime deixou. Para o PCP, a “chamada queda do Muro de Berlim” não foi um momento de libertação, mas a destruição das “realizações económicas, sociais e culturais de mais de 40 anos de poder dos trabalhadores” na antiga República Democrática Alemã. Para o PCP, o “suposto massacre de Tiananmen” pelas mãos do regime comunista chinês não existiu – afinal, tudo não passou de uma campanha difamatória dos EUA. Para o PCP, o regime norte-coreano não merece censura pelos seus crimes contra a humanidade – embora mereçam censura “as pressões, agressões e tentativas de desestabilização do imperialismo” na península coreana. Enfim, a lista é tão longa que dava para encher páginas.

Dir-me-ão que reescrever a história, enquanto a memória perdura, é um acto de ridícula resistência à realidade. Mas tudo deixa de ser ridículo quando, após décadas de insistência numa versão alternativa da realidade, a memória se esbate e a mentira passa a verdade. Décadas de iconografia poética e de romantismo revolucionário à volta de Fidel Castro tornaram hoje menos óbvio que, afinal, o cubano não passou de um ditador como outros da América Latina – eis, aqui, a demonstração de força da máquina comunista de revisão da história. Tão menos óbvio que, nos jornais do fim-de-semana, foi indisfarçável a dificuldade em qualificar Castro como o “ditador” que foi, preferindo-se uma infame sequência de formulações inócuas – “figura marcante”, “histórico”, “controverso”.

Ironia das ironias, no mundo livre foram muitos os que o homenagearam e choraram a morte de um inimigo da liberdade. Inquieta este confronto com a fragilidade dos valores democráticos, tão facilmente encostados quando os elogios a um tirano se impõem. Está claro que o tempo apaga tudo, incluindo a memória. E que essa é a lição que os comunistas nunca esqueceram: reescrever a história compensa, porque uma mentira contada muitas vezes ascende a verdade. Que aprendamos todos a lição, também, e levemos a sério o alerta que a morte do ditador cubano reforçou. Hoje foi Fidel Castro. Amanhã serão os nossos filhos a duvidar da repressão que justificou o Muro de Berlim. Porque ninguém lava a história como os comunistas. E ninguém como os comunistas conta com a história para os absolver dos seus crimes.

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