“É mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que elas foram enganadas”.
Frase erradamente atribuída a Mark Twain que muitos juram ter sido escrita pelo norte-americano.

“A insustentável leveza das lideranças da IL”: A demissão de Rui Rocha só surpreende quem desconhece o desprendimento que caracteriza a generalidade dos liberais relativamente ao exercício do Poder, ou não tenha lido Milan Kundera. Rui Rocha assumiu, recorde-se, a liderança da Iniciativa Liberal (IL) num momento especialmente crítico, marcado pela saída de João Cotrim de Figueiredo num contexto de acentuada divisão interna. A liderança de Rui Rocha revelou-se decisiva para pacificar internamente o partido e enfrentar três atos eleitorais exigentes. Os resultados eleitorais alcançados foram, sucessivamente, os melhores da história da IL. Ainda assim, prevalece a sensação de que o partido não conseguiu atingir plenamente o seu potencial político e eleitoral.

Num gesto coerente com o seu espírito e integridade pessoal, Rui Rocha optou por abrir espaço a uma nova liderança, permitindo ao partido avaliar se existe um “teto de cristal” ao crescimento do liberalismo em Portugal, ou se as dificuldades encontradas derivam em boa parte das lideranças até agora experimentadas. Conheço o Rui Rocha há muitos anos e só posso manifestar publicamente o meu reconhecimento pelo seu empenho, seriedade e dedicação à liderança da IL, sobretudo tendo em conta as circunstâncias políticas desafiantes e o contexto pessoal exigente que enfrentou.

Durante a liderança de Rui Rocha, a IL mereceu o meu voto por três ocasiões. Caso a escolha da próxima liderança da IL recaia sobre Mariana Leitão, irei reconsiderar o sentido do meu voto.

Entendo que o percurso profissional e o exemplo pessoal são elementos determinantes na hora de atribuir confiança política a qualquer candidato. Mariana Leitão possui uma trajetória que, a meu ver, é incompatível com os requisitos mínimos esperados para a liderança de um partido que se diz liberal. Antes de ingressar ativamente na política, Mariana Leitão desempenhou, durante treze anos, funções destacadas na “Puaça – Administração e Gestão S.A.”, empresa integralmente detida pela SONANGOL, a maior empresa pública angolana, associada diretamente a um regime onde grassa a corrupção sistémica e cleptocracia. Mariana Leitão foi segundo a própria, “Managing Director & Member of the Board” da Puaça, com competências executivas relevantes, nomeadamente na preparação e implementação de planos estratégicos, controlo e monitorização de desempenho financeiro e orçamental, bem como na gestão de investimentos e controlo de qualidade.

Não consigo racionalmente conceber como é que alguém que durante treze anos exerceu sem desconforto e seguramente com alguma miopia funções como as acima descritas na esfera de uma empresa pública tão sinistra quanto a SONANGOL, tem perfil para dar coerência à mensagem da IL e levar o partido mais longe do que os seus antecessores. A possibilidade de ter à frente dos destinos do partido alguém com um percurso profissional tão marcadamente ligado à esfera económica de um regime de características profundamente contrárias à mensagem e posicionamento da IL só pode ser visto como um gigante erro de casting cujos riscos me escuso a verbalizar, mas que ultrapassam em muito as meras consequências que poderiam resultar de uma gestão negligente numa associação de bridge.

“Olha para o que digo, não olhes para o que eu faço”: Hugo Soares que é, não esqueçamos, secretário-geral do PSD, veio a público defender que o candidato presidencial Gouveia e Melo tem “lacunas colossais” no seu pensamento, sobretudo na forma como encara a estabilidade política, acrescentando não lhe parecer saudável para a democracia, e cita-se, “que alguém que tenha exercido funções ao mais alto nível na esfera militar, possa sair da esfera militar para ser candidato presidencial”.

Valerá a pena recordar Hugo Soares que a sobrevivência ou fracasso iminente da 3.ª República está muito mais dependente do bom ou mau desempenho do governo que, entretanto, tomou posse, do que do risco de militarização do Regime, que não existe. Como muito bem referiu o Rui Ramos, no atual tempo político a eleição de alguém que, importa referir, já abandonou as Forças Armadas, não tem a carga de outros tempos, não havendo qualquer risco de militarização do Regime.

Os medos de Hugo Soares envelheceram rápido, e mal: é de suprema ironia que logo no dia seguinte às suas afirmações, o governo do PSD tenha escolhido para Ministra da Administração Interna a atual Provedora de Justiça, em funções, e antiga juíza do Tribunal Constitucional, Maria Lúcia Amaral (pessoa por quem tenho grande admiração pessoal), e reconduzido a Ministra da Saúde, não obstante os problemas detetados no Hospital de Santa Maria, que abarcam exercícios financeiros em que Ana Paula Martins foi presidente do Conselho de Administração, sem que isso tenha levado o secretário-geral do PSD a espirrar por insalubridade democrática. O tempo dirá quem está, ou não, a degradar a saúde da democracia.