A oligarquia ainda não conseguiu acertar no que deve dizer sobre a candidatura do almirante Gouveia e Melo. A primeira inclinação foi para provocar alergias à farda. O almirante, disseram-nos com muito nojo, seria o regresso dos militares à política, quarenta e três anos depois da revisão constitucional e da Lei de Defesa Nacional de 1982. Tem algum fundamento? Não. Gouveia e Melo é almirante, mas não representa as forças armadas, como representavam o general Carmona em 1928 ou o general Eanes em 1976. Não se candidata como chefe militar, escolhido entre os chefes militares. Não houve há dois anos, como em 1926 ou em 1974, um movimento militar que tivesse deixado o poder político nas mãos dos comandos das forças armadas.
A farda de Gouveia e Melo não é sinal de que os tanques estão na rua: indica apenas a sua profissão. O almirante, a ser eleito, não será um presidente militar como Carmona ou Eanes, mas o primeiro presidente, neste regime, cuja candidatura não foi apoiada por nenhum dos grandes partidos. É essa a novidade de Gouveia e Melo. Desde 1976, todos os candidatos vencedores tiveram o patrocínio do PSD ou do PS, ou de ambos. Desde 1986, foram sempre ex-líderes de um desses partidos. Mas a 18 de Maio, o PS passou para terceiro lugar e uma coligação PSD-CDS teve o segundo pior resultado da sua história. Se Gouveia e Melo derrotar o candidato do governo e o candidato ou candidatos socialistas, fica confirmada a transformação em curso do sistema partidário.
Daí, o segundo esforço da oligarquia para turvar a água. Foi Hugo Soares quem o proclamou: a candidatura do almirante destina-se a destruir o Chega. Faz isto sentido? Não faz. Não é no terreno de André Ventura que está o almirante: nem pelo que diz, nem pelas pessoas que o rodeiam. Gouveia e Melo já explicou que nada tem a ver com as ideias do Chega, e quando teve de escolher um mandatário, a sua opção foi Rui Rio. A insatisfação com o regime que o almirante se permitiu até agora verbalizar não é, nos termos em que é feita, um aceno aos eleitores de Ventura, mas aos eleitores do PS e do PSD que já deixaram de acreditar nesses partidos, mas que, por várias razões, ainda não veem o Chega como alternativa. É aliás aí que estão os números para eleger um presidente. Hugo Soares está a enganar-nos ou a enganar-se quando grita que o fogo está na casa ao lado: não, está na casa dele.
Gouveia e Melo, se eleito, não vai ser um presidente dos quartéis: vai ser o presidente de um eleitorado ofendido com a estagnação económica, a expropriação fiscal, a política de negócios, a imigração caótica – com todas as pragas a que o PS sujeitou o país e a que o PSD de Luís Montenegro dá uma cinzenta continuidade. O presidente vai, por isso, suscitar muitas expectativas. Vai, até, criar muitas tentações. A maior de todas será um partido do presidente. O regime assenta em partidos. É através de um partido maioritário, e não através de comentários e dissoluções, que um presidente pode exercer a máxima influência. Quem há para ir por aí? Acontece que não são apenas os eleitores que se estão a desligar do PSD e do PS, mas também políticos como os que já vimos na candidatura do almirante. Haverá, portanto, pessoal disponível. Quando todas as causas se reúnem, é difícil que não haja consequências.
Se for assim, não é difícil adivinhar o modelo. Será Macron em França: erguer, a partir das ruínas do PS e do PSD, um novo “centro”, em contraposição ao Chega e a algum resíduo de esquerdismo. Sim, é possível que a eleição do almirante acelere a transformação do sistema partidário, mas só um homem tão ingénuo ou tão desesperado como Hugo Soares pode acreditar que essa transformação se fará à custa do Chega.