A entrevista que Catarina Martins concedeu à Rádio Observador é uma excelente oportunidade para dissecarmos algumas incoerências no discurso do BE. O trabalho não é fácil devido ao baixo grau de exigência com que há anos se aceita, sem contraditório, as afirmações que o Bloco profere com a impetuosidade própria dos que não gostam de ser contrariados. Ora, como eu tenho um gosto particular em contrariar pessoas que odeiam ser contrariadas decidi-me a dedicar a crónica desta semana à entrevista de Catarina Martins.

Uma das afirmações dignas de registo da líder do BE é a de que “a direita está fora de jogo” (29m30s). Para o exemplificar, Catarina Martins refere que em 2019 já não se discute a privatização das estradas e dos caminhos-de-ferro. Para o BE o assunto está encerrado. Afirmação que peca por falsa. Na verdade, o assunto não está encerrado e por uma razão muito simples: é que a dívida continua lá. Fazendo uso de um truque muito habitual, a líder do BE confunde não se falar de um problema com a inexistência deste. O que não é a mesma coisa como todos sabemos, a própria Catarina Martins incluída.

Outro exemplo que Catarina Martins vai buscar para sustentar que a direita está fora de jogo é que já não se fazem cortes nas pensões e nos salários. Pois não. Como é a esquerda que está em jogo o que se fazem são cativações no Orçamento de Estado que põem em risco o SNS. Um pormenor que não é somenos. Um detalhe que Catarina Martins esquece mas que é da máxima importância pois revela a habilidade ilusionista do BE a par com o reconhecimento de que o problema da dívida pública tem consequências nas políticas públicas. A líder do BE sabe (embora não o diga) que o social-comunismo que quer para Portugal precisa de dinheiro e que esse dinheiro falta. A geringonça não foi apenas uma prova de perícia de diferentes partidos (cada vez mais semelhantes), mas um equilibrismo ideológico que não tem muito mais para onde se virar.

No fundo o país não está muito diferente de 2015. A direita está fora de jogo porque o país vive numa realidade virtual e o PSD e o CDS se renderam à evidência. Não deixa de ter graça (não fosse triste, porque sintomático) que PSD e CDS se tenham rendido à realidade que é um país viver uma ficção para que não vivam num mundo à parte.

Pouco mudou desde 2015 e porque assim é Catarina Martins continua com a lengalenga da venda da REN ao Estado chinês. A coordenadora do BE apresenta a venda como uma peculiaridade do liberalismo português, mas esquece que a REN foi vendida porque o Estado português precisava desesperadamente de dinheiro para pagar uma peculiaridade que o BE tão bem representa: um país em que antes de mais nada e para fazer o que quer que seja se tem de que pedir autorização a um político. Catarina Martins não gosta que os políticos sejam do PS ou do PSD. Mas enquanto eu não gosto que se tenha de pedir o que quer que seja a um político (comportamento a que se dá o nome feio de corrupção) Catarina Martins luta para que esse político seja do BE. A alternativa não é muita. E nesse aspecto não é desde 2015, mas de 1976 que pouco ou quase nada mudou.

Mas atentemos a alguns trechos da entrevista para que se perceba um pouco melhor da técnica bloquista: “Uma empresa em si não diz nada à generalidade das pessoas” (13m40s). Uma frase tão absurda quanto absurdo seria eu escrever: O Estado em si não diz nada à generalidade das pessoas. O que significam “em si” e “a generalidade das pessoas”? Como a própria afirma quando questionada sobre um dos exemplos que refere “isso agora não interessa, é só para perceber o absurdo (13m46s)”. Porque absurdos há muitos. Vejamos outro: “Quando queremos acabar com a diferença entre um trabalhador que está contratado em outsourcing ou directamente na empresa, que é possivelmente uma dos mecanismos mais chocantes até de como as grandes empresas abusam dos trabalhadores em Portugal, que é pôr dois trabalhadores, um ao lado do outro, com direitos diferentes, e um deles vem de uma empresa de outsourcing sem direitos nenhuns e sabe que a qualquer momento é dispensado e por isso aceita tudo e o que tem vínculo à empresa está a trabalhar ao lado dele e percebe que um dia pode ficar como o outro sem direitos nenhuns” (14.28).

Não só o que a líder do BE afirma é mentira, porque quem trabalha para uma empresa de outsourcing também tem um contrato de trabalho com os direitos provenientes da lei, como também eu posso facilmente escrever coisas igualmente falsas e absurdas. Vejam bem: quando queremos acabar com a diferença entre um trabalhador que está no sector privado ou trabalha para o Estado, que é possivelmente um dos mecanismos mais chocantes até de como o socialismo abusa dos cidadãos em Portugal, que é pôr dois cidadãos, um ao lado do outro, com direitos diferentes, e um deles vem de uma empresa do sector privado sem direitos nenhuns e sabe que a qualquer momento é dispensado e por isso aceita tudo e o que trabalha para o Estado está a viver ao lado dele e percebe que um dia pode ficar como o outro sem direitos nenhuns e por isso vota em partidos como o PS e o BE. São as duas afirmações igualmente absurdas (sim, a de Catarina Martins consegue ser ainda mais absurda que a minha) porque as empresas não são o bicho-papão que exploram os trabalhadores. As empresas precisam deles e por isso pagam-lhes salários, a maioria das vezes superiores aos que a lei lhes impõe.

Mas há mais: “Há quem ganhe muito e pague pouco do seu esforço e quem ganhe pouco e esteja a pagar muito” (55m37s). A coordenadora do BE esquece que os que ganham pouco não pagam impostos. A ideia contrária, que Catarina Martins difunde, é apenas um esforço para que a percentagem da população que paga a maioria dos impostos não se revolte com o problema crónico do socialismo que é o de gerir mal o nosso dinheiro. O dinheiro que entregamos ao Estado para que os políticos (e desde 2015, os do BE incluídos) o giram.

Porque no fim de tudo isto vamos dar ao assunto de sempre: o que é para o BE a democracia? O que é para o BE viver em liberdade? E quem ouça a entrevista de Catarina Martins percebe muito bem que no seu entender a democracia tem um dono. Que a democracia se faz dentro do Estado. Estado que também deve deter os nossos bens com o pretexto de que se os detém estes passam a ser de todos, como se todos tivéssemos acesso aos lucros (raríssimos) das empresas públicas, da mesma forma que todos pagamos os seus prejuízos. Todos pagamos a gestão do socialismo: sejam os prejuízos das empresas públicas, sejam os das empresas privadas que andam de mão dada com o poder político.

A percepção de que a democracia se vive no interior do Estado, dirigida por este de acordo com uma verdade certa e absoluta, única, isenta de discussão pois a tónica do discurso bloquista está na moral. O que o BE defende é sempre moralmente certo, logo quem a este se opõe está moralmente errado. Moralmente desvirtuado. Numa democracia bloquista não se discute porque o povo vota, vota devidamente encaminhado para o voto certo, que se torna soberano, definitivo, que adquire os contornos morais que ostracizam quem se opuser à decisão votada e que por isso deve ficar fora de jogo. Esta dualidade é várias vezes referida no decorrer da entrevista e quando Catarina Martins candidamente nos diz que “a ideia de um mundo a preto e branco, de vilões e heróis, não me agrada” (17m) ficamos com a certeza que para se ser de esquerda em Portugal não é preciso ser muito inteligente. É demasiado fácil e não requer muito esforço. É só preciso ter lata. Ímpeto e lata. Dizer o que nos vem à cabeça é mais do que suficiente. Um absurdo igual todos os outros.