A 17 de janeiro de 1900, num número do seu jornal A Paródia, Rafael Bordalo Pinheiro ilustrava a sua perspetiva sobre a situação política. Sob a capa dura do título A Política: a Grande Porca, o cartoon representava os vários partidos políticos e seus líderes como leitões a mamarem no úbere de uma enorme e farta porca pachorrenta. O mote estava dado, e o semanário satírico não se coibiria de criticar nos números seguintes, também à custa de imagens zoopolíticas, aqueles que viviam e progrediam com os favores financeiros das instituições políticas naquele fin de siècle em que se respiravam os últimos miasmas da Monarquia.
A visão tragicómica, onde o pessoal político é percebido como um parasita que vive e prospera a expensas dos eleitores e contribuintes ainda subsiste no ar dos tempos. Bastará para o confirmar assistir aos recentes debates televisivos que antecederam a campanha para as eleições presidenciais. Candidatos no menu: antissistema, fora do sistema, renovadores do sistema, arcaizantes do sistema, representantes do sistema,… Por sistema deverá entender-se qualquer coisa ligada aos partidos cinquentenários, partidos esses que, até há poucos meses, dominavam o espectro político nacional.
Neste singular cenário, a figura de proa de um ex-almirante foi, provavelmente, a surpresa mais esperada desta batalha eleitoral. Esperada, visto que anunciada e preparada de antanho e com muitas pinças – que a performance do próprio veio justificar –, e com um excelente manuseamento de pontuais tempos de antena nos órgãos de comunicação ao longo de meses. A verdade, ou se preferirem, a realidade, mostrou nesta longa lista de debates televisivos (e entrevistas) que o senhor Henrique Gouveia e Melo não estava (não está) preparado para exercer as funções constitucionais que o cargo de Chefe de Estado exige. Politicamente imaturo, sem carisma (apesar da bela figura), lento na argumentação, parece zombar, ainda que involuntariamente e por uma rara coincidência de fenómenos genéticos e ambientais, das três características que devem fazer parte do discurso de um político: o logos, o ethos e o pathos.
Desde o princípio que Gouveia e Melo testou a personagem de alguém que, apesar de não ser contra o sistema, vinha de fora do sistema. Sem pertença a partidos políticos, estranho a questões partidárias, sem padrinhos ou lobbies, por um lado, poliu igualmente a esfinge de Homem de Estado (antiventuriano), responsável e fazedor (processo de vacinação). Ora, no último debate, frente a um dos seus mais diretos adversários, Marques Mendes, o ex-Almirante desbaratou toda a pompa e circunstância que iluminavam até aí a sua aura de verdadeiro e único independente no confronto político. Se até a esse match o boneco havia se aguentado, desde o primeiro minuto, desde a primeira intervenção, que o candidato desmanchou a postura séria e cordata e conversadeira habituais, e passou a recorrer a todos os truques conhecidos da politiquice e da baixa política, ou seja, e nos termos do presente artigo, da política suídea. Acusou repetidamente o ex-comentador de facilitador de negócios e lobista; contudo, quando instado a apresentar um caso concreto, o submarinista não conseguiu vir à superfície. Com a conivência do moderador, durante mais de três quartos do debate o povo português assistiu a um corpo-a-corpo, combate onde o ex-líder do PSD se tentou esquivar à sujidade que o outro lhe atirava à queima-roupa, numa dinâmica orgânica de ação-reação e ativo-passivo.
Foi precisamente a atirar lama para o seu opositor que aquele candidato passou todo o debate, munido de insinuações e confrontações e falácias ad hominem, e dotado de uma agressividade e combatividade que não lhe conhecíamos. Marques Mendes, pensamos nós, acertou no alvo quando aventou que aquela repentina febre tinha nas sondagens a sua causa: de facto, Gouveia e Melo não consegue inverter a descida nas intenções de voto dos portugueses.
Num relativo curto espaço de tempo o Desejado passou à condição de o Desesperado. Perante os resultados menos favoráveis das sondagens, não tardou muito a recorrer às manigâncias que durante meses acusou a classe política de praticar e que, na sua opinião, muito desgastaram o regime, acentuando e acelerando a sua quebra de popularidade. O homem que, segundo as suas palavras, lutou durante mais de quarenta anos pela pátria, que deseja unir os portugueses, apresentou-se no último debate do calendário como apenas mais um arrivista político. Voltando ao nosso quadro inicial, este cidadão parece estar disposto a abrir caminho manu militari para assegurar a teta disponível.