Há décadas, largas décadas, que as democracias deixaram de eleger militares para a presidência. Os motivos incluem o cuidado em separar o poder militar do civil, ou o receio do autoritarismo, ou o lugar minúsculo dos conflitos armados nas cabeças ocidentais, ou a hipótese enriquecedora que quiserem adicionar.
O facto é que sem guerras, ou sem guerras que influenciem a sério a vida “comum”, não há heróis de guerra para premiar e pendurar na chefia dos estados. Na América, houve o remoto Eisenhower, com a derrota nazi fresquinha no bolso, como no século XIX houvera Ulysses S. Grant e meia dúzia de figuras comparativamente menores da Guerra Civil. Na Europa, De Gaulle, que morreu em 1970. E, Deus me fulmine se desprezar a pátria amada, Ramalho Eanes, não tanto pela presença nos três cenários de conflito ultramarinos, mas sobretudo pela batalha contra o comunismo que culminou no 25 de Novembro de 1975. Salvo ocasional esquecimento, o inventário fica por aqui: o velho hábito, esporádico e intermitente, de pôr militares na liderança de regimes liberais morreu há que tempos.
A notícia é que Portugal se prepara para ressuscitá-lo. Meio século após o último presidente fardado de uma nação do “mundo livre”, há altas possibilidades de que o almirante Gouveia e Melo chegue ao topo da República. É sem dúvida uma excentricidade, que aumenta ao percebermos que o almirante Gouveia e Melo nem sequer é o típico destinatário da consagração de carreira, o guerreiro derreado com o peso das medalhas por proezas em combate.
Para dizer a verdade, parece que Gouveia e Melo nunca combateu. Para dizer o que o próprio diz, combateu em duas ocasiões. A segunda, conforme explicou em entrevista de 2023, foi, palavras dele, “uma guerra sem quartel”: consistiu em ser Chefe do Estado-Maior da Armada enquanto uns barcos da Marinha e da Polícia Marítima interceptavam lanchas de traficantes de haxixe ao largo do Algarve. Não é exactamente Gettysburg ou as Ardenas, mas prometo não maçar ninguém com o relato da minha breve passagem pela Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, onde defrontei o tédio com bravura e fui derrotado.
A primeira ocasião em que Gouveia e Melo combateu foi – soem as trompetas – “no combate da nossa geração” (estou a citá-lo): a coordenação da “task force” de vacinação para a Covid, oito meses de luta intensa, em que enfermeiros administravam injecções a pessoas desejosas de levar com elas, e o almirante, então vice, vigiava as hostilidades à distância e camuflado. O sucesso da empreitada é discutível, as consequências não: com a Guerra das Vacinas em fase adiantada ou terminal, Portugal liderava o planeta em taxas de infecção e mortalidade. Mesmo assim, o povo, infectado ou falecido, apreciou o esforço e venerou a farda. As sondagens das “presidenciais” sugerem que continua a apreciar. E, com ancestral pasmo, a venerar.
Do trabalho do almirante na condução da Armada não falo, excepto para notar que, logo que ele saiu, o único submarino operacional cessou de operar e um navio de instrução afundou-se, talvez por solidariedade e luto. Na despedida, a revista que por acaso Gouveia e Melo tutelava comparou-o a D. João II. Hoje, porém, o fundamental é avaliar a capacidade do homem para desempenhar o cargo a que está quase a candidatar-se. Muitos queixam-se de que não sabem o que ele pensa: eu queixo-me por saber demasiado.
Para quem é louvado pela discrição e autoridade, Gouveia e Melo abre a boca com extraordinária frequência e alivia-se de extraordinárias proclamações. Ele encontra-se “entre o socialismo e a social-democracia”. Ele quer mais habitação, quiçá em tendas. Ele quer menos impostos. Ele quer imigração “estruturada e sustentada”. Ele quer uma “economia inovadora”, do mar e de mercado. Ele quer turismo, indústria química e “saúde digital”. Ele quer apostar na defesa e na construção naval. Ele não quer soluções simplistas. Ele quer repetir clichés partidários, aparentemente julga vir a decidir políticas governamentais e evidentemente concorre ao emprego errado.
Outro equívoco que persegue o almirante é o de que ele apenas poderá vir a ser presidente porque, do alto de uma mítica “solenidade”, representa o exacto oposto do prof. Marcelo. Trata-se de um tiro na água, embora se aceite que Gouveia e Melo apenas poderá vir a ser presidente por causa do prof. Marcelo: antes do festival de variedades a que o incumbente reduziu a função, afinal subtraindo-lhe qualquer réstia de prestígio, não seria provável imaginar que um desconhecido sem particulares méritos públicos, currículo ou, desculpem, “carisma” chegasse a PR. Agora é. E isso vale para Gouveia e Melo e vale para a respectiva concorrência, um punhado de minudências cujo apetite só cresceu graças ao precedente nivelador do prof. Marcelo – e cuja pequenez simbólica ajuda a destacar o D. João II a que temos direito, que fisicamente é alto.
Parcelas somadas, o enfado põe a questão: faz diferença? Muda alguma coisa enfiar em Belém Fulano, Sicrano ou um Beltrano apoiado por Isaltino Morais e o dr. Capucho? Há razões para pensar além da modorra interminável a que chamamos a nossa terra? Há sentido em esperar que nos tornemos o que firmemente recusamos ser? Há esperança sob a pesada sentença deste anonimato em forma de país? A internet teima em atribuir, se calhar falsamente, uma frase a Gouveia e Melo: “Os portugueses são como as baratas: resistem a tudo”. E são pisados por nada.