Entretanto, eles caem-nos no colo. Não pesam. Mal se mexem. Parecem meninos-Jesus. Se bem que, na verdade, somos nós que descobrimos ser Deus — todo poderoso! — até que as suas necessidades inadiáveis façam de nós o seu amor.
A seguir, eles crescem. E somos, de forma incansável, o centro do seu mundo. E alimentam-nos a ilusão que, não podendo estar em todo o lado ao mesmo tempo, tudo o que lhes aconteça depende de nós.
Depois, a rirem-se para alguém, riem-se para nós. E amam-nos duma maneira tão torrencial e desmedida que não temos como não nos render ao seu amor. Que – às vezes, mal – faz com que o nosso amor por eles passe a ser a unidade de medida de tudo aquilo que temos para dar.
Finalmente, empinam o nariz. E negoceiam. E são, até, demagógicos quando dizem que não gostam de nós. Mas aceitamos, claro. A ponto de imaginarmos que amamos os filhos todos da mesma maneira, que os educamos de forma sempre igual e, acima de tudo, que o amor dos pais é, para sempre, incondicional. Não se constipa. Nunca se amarrota. E é, eternamente, assim: enorme, sem margens nem medidas, escancarado e solarengo.
Mas será, alguma vez que seja, o nosso amor incondicional?…
E, depois, eles crescem. Crianças amadas têm, como não podia deixar de ser, o seu pequeno-nada de egocêntrico. Aprendem mais a receber que a dar. E esperam que o mundo, a dar-se da forma como nos damos, vá sempre ao seu encontro. E que rejubile unicamente porque elas existem.
E, aí, entre o dar e o receber, há um desequilíbrio que se instala. E, logo a seguir, o “eu é que sei” ensina-nos que o egocentrismo – que deve ser, como o sal na cozinha, nem de mais nem de menos – tem um pequeno degrau a separá-lo do egoísmo. Que, por seu lado, tem a distanciá-lo do narcisismo outro degrau, talvez mais pequenino. A ponto do amor, que julgávamos incondicional e para todo o sempre, vá ficando manchado de descuidos. Que, emaranhados uns nos outros, geram desamparos. Que, passo a passo, vão até à indiferença.
Nem sempre os bons pais criam bons filhos. Basta que, movidos pela ilusão de um amor incondicional, os pais dêem sem olhar ao que recebem. E condescendam com o descuido, com o desamparo, com o egoísmo ou com o narcisismo dos seus filhos.
Filhos assim são filhos, claro. Mas magoam, aos poucos. E, distraidamente, são ingratos! E é, por isso, bom, que em função de tudo o que lhes dão, para bem do seu amor, que pais e filhos jamais percam de vista que o amor é sempre à condição. E se dá vida e nos revolve, pode, por omissão, matar devagarinho.