Há que tirar o chapéu a António Costa, o anestesista-mor do Reino (mais tarde haveremos de tirar tudo, até ficarmos de tanga, mais curta ainda do que a outra).

Primeiro, fez uma remodelação-surpresa e livrou-se, de uma penada só, de alguns ministros incómodos, substituindo-os pela sua guarda pretoriana (fiéis, espartanos, vozes de um só dono), que tudo farão e tudo mudarão, durante os próximos meses, para que tudo fique exactamente na mesma.

Só o facto de colocar Galamba no Ministério do Ambiente a tratar da energia revela uma jogada de mestre: o homem deixa de dizer disparates em público (como o do rating da Moody’s) e fica inibido de dizer alguma coisa, porque a sua vasta experiência acumulada sobre energia resume-se, ao que consta, à tarefa de pagar a conta da electricidade em casa e de apontar a contagem do aparelho. E, enquanto isto, o Regulador está controlado por outro pretoriano, perito em turismo rural e que qualifica para a ERSE porque, para além de ser colega de Galamba no curso de leitura de contadores, é especialista em interruptores e substituição de lâmpadas.

Em segundo lugar, a fantástica peça que é o Orçamento do Estado: cavalgando um cenário económico positivo e artificialmente empolado pela equipa de Centeno, o Governo despeja milhões em cima de tudo o que a extrema-esquerda pôs a mexer – sem razoabilidade nem critério, desfiando perante nós um chorrilho de medidas avulsas que servem para satisfazer as clientelas do PC, do Bloco e do PAN. A consequência é, como se previa, um aumento brutal da despesa pública, que se manterá independentemente do ciclo político e que hipoteca o futuro do país e das gerações vindouras em troca de (ironia das ironias) uma maioria absoluta para o PS em 2019.

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Para além disso, não há uma única medida para estimular o investimento, para incentivar o crescimento económico, para atrair as empresas, para criar postos de trabalho ou para fixar talento em Portugal através de uma carga fiscal equilibrada. Pormenores.

Tudo isto se passa perante a apatia generalizada da oposição e da comunicação social, deslumbrados, desorientados ou simplesmente incompetentes e sem saberem como fazer oposição ou desafiar as opções do Governo, caindo na armadilha da confusão entre conjuntura económica e mérito do Conselho de Ministros.

Rui Rio, entretido a apagar a vaga de incêndios que se deslocou para o interior do PSD (por combustão espontânea, diga-se), anda de extintor nas sedes regionais a substituir uns caciques por outros da sua confiança e a mandar calar os deputados irrequietos e que não se conformam com a sua inércia – oposição responsável significa, ao que parece, não ter uma ideia, não ter uma proposta, não ter uma opinião e não ter nada para dizer. Rio está anestesiado por Costa (apesar de as más-línguas sustentarem que o caso é mesmo de paragem cardíaca).

Assunção Cristas tenta alertar para os perigos da governação à vista e para o populismo orçamental, mas a comunicação social parece anestesiar o CDS.

Catarina Martins transformou-se num peixe-balão, inchado pela sua própria relevância. Entre propinas, baixas de IVA na cultura, reformas e aumentos, já não consegue gerir a agenda com a programação das suas intervenções destinadas a demonstrar que ganhou uma e mais outra batalha pelo despesismo. Está anestesiada pela luz ofuscante do poder e nem quer saber de 2019.

Jerónimo de Sousa está conformado com a perspectiva de ter os resultados mais baixos de sempre nas próximas eleições. Não tem a habilidade fotogénica de Catarina, não tem espaço de manobra entre os seus sindicatos e vive entre os jovens turcos e a velha guarda – está anestesiado pela ausência de caminhos, aprisionado numa espécie de antecâmara da deportação (para a Sibéria política).

O partido Aliança nasceu cego pela raiva e só procura uns votos e umas prebendas, anestesiado dentro da algibeira direita de António Costa, que tirará do bolso esquerdo meia dúzia de lugares e de favores.

E os portugueses estão anestesiados por este bodo aos pobres imediatista, uma ilusão de felicidade que tudo empurra para depois das eleições de 2019.

Depois disso, só desejo poder ver Costa com maioria absoluta, uma enorme e incontestável maioria absoluta. A governar com Bloco e PC do outro lado da barricada. Sem folga orçamental. Coroado Rei (a seguir a depor Marcelo quando já não precisar de ajuda).

Quero ver Costa por cima de tudo e todos – uma vaca voadora a pairar sobre o país. E, nessa altura, veremos quem serão os atiradores furtivos que lhe furem o balão de ar e o façam aterrar na dura realidade que todos teremos de viver.