Ao contrário dos Presidentes da República oriundos da esquerda portuguesa, que nunca tiveram qualquer constrangimento em lançar-se como candidatos representativos da sua área política, os chefes de estado que nasceram à direita mostraram sempre um cuidado particular com esse tipo de conotações na hora de se lançarem às urnas.

Fosse por uma questão de patriotismo de quem quer ser o presidente de todos os portugueses, por uma questão de institucionalismo de quem sabe que o Presidente da República deve ser politicamente neutro ou por uma questão de táctica eleitoral de quem se curva perante a ideia de um país sociologicamente virado à esquerda, Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa fizeram campanhas em que a colagem ao seu partido e aos outros que os apoiaram ou à área política a que, em teoria, pertenciam, foi evitada de uma forma pouco discreta.

Esse típico número de pequena hipocrisia, característico das candidaturas com tracção vencedora à direita, corresponde, apesar de tudo, a uma postura legítima dos seus protagonistas e que, salvo melhor opinião, em nada prejudica o apoio e o voto de quem se posicione nesse campo político, ainda que possam ser um apoio igualmente discreto e um voto dado com desconfiança.

Mas o actual Presidente da República aparenta ter ensaiado um inovador passo em frente. É que para lá de manter esse pudor típico dos candidatos de direita em identificarem-se como tal, Marcelo procura sem pudor dirigir a sua acção para convencer o eleitorado à esquerda de que pode e deve identificar-se com ele. Esse plano fica evidente na troca de fretes recente entre o próprio e António Costa, que deixou claro que a recomendável cooperação institucional entre o chefe de estado e o chefe de governo já se transformou numa reprovável cooperação instrumental entre o candidato à reeleição e o líder partidário.

Um apoio espontâneo do líder do PS a um candidato com pretensão de ser politicamente neutro seria natural. Mas este não é um apoio que nasça do improviso, é um apoio cúmplice. E por isso levanta muitas inquietações. Afinal, ao contrário daquele para o qual Costa já fez reserva com dois lugares à mesa na cantina da Autoeuropa, não é hábito haver almoços grátis. E o repasto de favores entre ambos terá uma fatura a pagar. E um eleitor de direita pode sentir que a despesa, politicamente falando, vai sair-lhe do bolso.

A essa direita – a democrática, moderada e liberal – caberia nas eleições presidenciais do próximo ano uma missão ingrata mas crucial: unir-se, sem hesitações, em torno da candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, como bem apelou neste artigo o Francisco Mendes da Silva, por forma a estancar a hemorragia que fere o regime democrático chamado André Ventura, representação da direita autoritária, radical e iliberal que se levanta e procura a prevalência no espaço político à direita.

Mas a rendição de Marcelo aos feitiços da sedução socialista deve obrigar essa direita a lançar a interrogação sobre se será ele o protagonista certo para travar em seu nome um combate contra a ascensão da direita musculada e perigosa ou se, pelo contrário, não será ele um factor galvanizador desse crescimento à custa do voto de protesto surgido da repulsa em confiar no candidato que preferiu confiar no eleitorado socialista, da parte dos eleitores identificados com o voto no CDS, na Iniciativa Liberal e, sobretudo, no PSD. Feita a interrogação, será a resposta o nascimento de uma terceira via à direita?

Essa ideia, ainda que tentadora, é arriscada e tem um perigo: se ter em André Ventura a única alternativa a Marcelo com espaço para se afirmar merece apreensão, ir buscar um candidato à prateleira dos pseudo-notáveis fadado ao triste destino de ficar na sombra do líder do Chega numa derrota previsível, seria trágico.

Por isso, se a jogada é de risco, só pode ser feita com um ás de trunfo. No baralho da direita, aparenta não haver abundância de protagonistas capazes de aglutinar a disponibilidade, as características e as condições para abraçar esta missão de, simultaneamente, ocupar o espaço que Marcelo não quer, contrariar Ventura e a ameaça que representa e, sobretudo, representar uma direita que vai ficando cada vez mais órfã de uma opção. Mas havendo, mais do que um perigo, essa pode ser a grande oportunidade destas eleições para uma direita que não se quer confundir com o oito do populista do sistema e o oitenta do populista que o quer pôr em causa.