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Já nos vínhamos apercebendo, nos últimos largos dias e com uma intensidade crescente, da desgovernação da vacinação em Portugal. Agora, a demissão de Francisco Ramos, o seu coordenador, depois de tomar conhecimento de “irregularidades” na priorização dos profissionais de saúde no Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa, a cuja comissão executiva preside, veio institucionalizar o espectro da sua ingovernabilidade. Sim, a demissão ficou-lhe bem, sobretudo quando tantos governantes se agarram ao poder que já não têm condições de exercer. Mas pode ter sido também uma bem-vinda oportunidade para se desembaraçar de uma função para a qual, manifestamente, não estava talhado.

Este foi apenas mais um triste episódio de um percurso ainda curto, mas pleno de percalços. O primeiro terá sido o da elaboração dos critérios de prioridade da vacinação, particularmente com a exclusão dos maiores de 80 anos, a que se seguiu o comentário público de responsáveis da nação desacreditando as ditas recomendações técnicas. Hesito sobre o que será mais gravoso: recomendações em elaboração, ao arrepio dos consensos internacionais e também da Organização Mundial de Saúde de incluir os mais idosos na primeira fase, dado que a idade só por si é um factor de risco, ou a desvalorização e mesmo ridicularização do parecer de especialistas, indispensáveis no combate à pandemia, sobrepondo-lhes a decisão política.

Desde esta polémica se percebeu que a breve, mas meritória, campanha em prol da vacinação, com o eficaz exemplo dado por profissionais de saúde em a receber em primeiro lugar, não era afinal necessária em Portugal, cuja cena não é a da negacionista antivacinação, mas a do assalto às vacinas.

E este assalto começou cedo…, começou entre profissionais de instituições de saúde, nomeadamente administrativos, que não se ousou denunciar porque até trabalhavam em hospitais que são hoje, justificadamente, espaços sagrados no profano da doença. Depois, como qualquer outra maleita contagiosa, alastrou-se e foi contaminando lares, Misericórdias, câmaras, com políticos e familiares a usurparem as vacinas. As denúncias irromperam então e foram-se acumulando, acompanhadas de histórias ditadas pelo entusiasmo de uma imaginação tão fértil que não atende sequer à conveniência de alguma razoabilidade da narrativa, como aquele que fez vacinar a mulher, doméstica até então, mas que iria trabalhar como voluntária junto de doentes Covid. Tanta imaginação pareceu-me sinónimo de impunidade, mas decorrem já hoje nove inquéritos do Ministério Público.

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Creio que o interesse do Ministério Público foi desencadeado por aquela outra história rocambolesca do médico do INEM que vacinou 11 funcionários da pastelaria em frente e que foi imediatamente afastado do cargo. A este, porém, e salvo outras informações de que não disponho, considero-o mais uma vítima do que um usurpador. Os funcionários da pastelaria não eram familiares ou amigos. Não houve interesse próprio. Os funcionários da pastelaria eram, simplesmente, os mais próximos para que não se desperdiçassem vacinas. O interesse foi o de rentabilizar o bem que lhe havia sido confiado. O episódio da pastelaria foi uma evidência gritante do incompetente planeamento da vacinação que não dispunha de uma lista de suplentes, quando se sabia que havia imponderáveis plurais que podiam impedir os nomeados de tomar as vacinas e que estas têm uma curta duração. Este médico do INEM fez o que estava ao seu alcance quando outros não fizeram o que lhes competia. Foi o único imediatamente penalizado. No dia seguinte instituiu-se a lista de suplentes….

Mas o assalto às vacinas não é protagonizado apenas pelos insignificantes espertalhões do nosso país; também é ensaiado pelos poderosos a coberto da lei, do Despacho n.º 1090-D/2021, de 26 de Janeiro, do gabinete do Primeiro-Ministro, que solicita aos responsáveis indicação dos funcionários a vacinar prioritariamente na Presidência da República, no Conselho de Estado, entre os representantes da República para as Regiões Autónomas, na Assembleia da República, nos Conselhos Superiores da Magistratura e nos Tribunais Administrativos e Fiscais, no Tribunal Constitucional e no Tribunal de Contas, no Ministério Público, nos Governos Regionais dos Açores e da Madeira, na Provedoria de Justiça… Enfim. Não caio na demagogia de considerar que os mais elevados representantes do país, precisamente porque o são, não devem ter prioridade; também ministros e alguns secretários de Estado, sobretudo quando Portugal detém a Presidência da União Europeia, devem ser rapidamente vacinados. Tudo o resto me parece um assalto de colarinho branco.

Dez meses depois da pandemia ter grassado entre nós, ainda não percebemos que é agindo responsavelmente que nos tornamos mais eficazes como agentes individuais de saúde pública. Nada desculpa a fraude do cidadão comum, mas o exemplo, que devia vir de cima, também não ajuda!