Há gestos políticos que dizem mais do que discursos inteiros. Quando Mariana  Mortágua trocou o plenário pela maré e embarcou numa flotilha rumo a Gaza,  não foi só uma decisão de agenda: foi uma declaração de identidade e, de certo  modo, de falência. Não se trata de questionar a bondade de uma causa, a  solidariedade tem lugar, mas de perceber que, em política, o gesto não vem  desassociado do cálculo. E este gesto, caro leitor, saiu mal.

O Bloco de Esquerda não caiu de repente. Caiu por acumulado: por escolhas que  foram diminuindo a sua utilidade, por incoerências que corroeram autoridade,  por cerimónias que empobreceram o conteúdo. Nos anos da geringonça, havia  uma margem de influência. Depois veio o divórcio com o PS, a redução para cinco  deputados, a sensação de impotência e, por fim, a travessia para a nostalgia,  cabeças de lista ressuscitadas, discursos cada vez mais teóricos, uma linguagem  que soava a catequese. Em 2025 o saldo foi cruel: um deputado, meio milhão de  votos evaporados numa década. Dados que não são metáforas; são ossos do ofício  democrático.

A incoerência interna acelerou a queda. Despedimentos por telefone, incluindo  mães em amamentação, não são apenas um erro tácito: são uma ferida moral. Um  partido que se proclama paladino dos trabalhadores não pode praticar a mesma  brutalidade de que acusa outros. E a tentativa de se exonerar pela imprensa, para  só depois pedir desculpas, é um show de má governança. A credibilidade,  quando se perde, não se reconquista com slogans.

Mas é preciso insistir na cena do barco, porque aí se concentra a fotografia do que  o Bloco terminou por ser: uma máquina de performatividade. Haveria,  novamente, uma leitura ingênua e uma outra, mais dura. A primeira aceita a boa  fé. A segunda vê a operação como o que muitas dessas iniciativas realmente são,  uma jogada política pensada ao detalhe. A extrema-esquerda tem tradição nestes  malabarismos: transformar solidariedade em espetáculo, emoção em tática,  compaixão em manchete. Mortágua não foi só a bordo para socorrer; foi a bordo  para ser vista a socorrer. E há diferença entre a ajuda que procura resultados  discretos e a ajuda que procura capas de jornal.

Dizer que um gesto é tácito não é o reduzir a cinismo; é nomear uma realidade.  Em vez de organizar redes locais de apoio, de pressionar, de legislar, prefere-se o gesto encenado, porque produz narrativa, dá visibilidade e pode servir de  moeda de troca para narrativas futuras. São operações pensadas com a precisão de quem ensaia um argumento, por vezes até com mais cuidado do que muitos  planos de campanha. Quem verdadeiramente quer aliviar o sofrimento fá-lo sem  holofotes; quem quer capitalizar um gesto transforma-o em imagem perene, em  medalha portátil.

E esse desiderato de imagem é sintomático de um problema maior: a perda de  seriedade da esquerda portuguesa. Extremou-se. Fechou-se em slogans que  prometem mundos sem custos e, quando confrontada com a governação  concreta, preferiu a retórica às ferramentas. Caíram na tentação das utopias e nas  estratégias concebidas pelos seus próprios criadores – planos brilhantes no papel,  medíocres na execução. O resultado é previsível: afastamento do quotidiano do  eleitorado, incapacidade de responder aos temas que realmente definem a vida  das pessoas, habitação, salários, saúde e a substituição do político pelo moralista.

O que enerva nesta queda não é apenas a decadência orgânica de um partido. É  ver a política reduzida a fotografia. É assistir a um quadro em que o cuidado  torna-se cenário e a prioridade passa a ser a exposição. O Bloco trocou a rua por  um barco, a bengala da argumentação por um colete salva-vidas fotogénico. A  teatralidade substituiu o trabalho suado. E, no fim, o barco zarpa e deixa para  trás um Parlamento onde pouco restou da influência que ameaçava ter.

Há, claro, espaço para redenção. Toda força política pode reinventar-se se aceitar  o exame implacável da realidade e trocar o gesto por resultado. Mas isso exige  humildade, e humildade é a palavra que mais falta no veterano e no novo  radicalismo. Exige trabalho, alianças, compromisso quotidiano com quem paga  as contas e com quem espera respostas imediatas, não slogans internacionais.

Por enquanto, resta a imagem: um barco, manchetes, palmas e um epitáfio. O Bloco já não é uma força de governo nem mesmo de oposição com capacidade de  intervenção. É, ao que parece, uma memória que se passeia em alto-mar à procura  de si mesma. Esperar que volte à terra e aprenda a falar com os desafios concretos  do país é desejar algo que, sendo necessário, exige mais do que um gesto bem  fotografado. Exige coragem, paciência e trabalho: coisas que não se compram  numa viagem e não se ganham com uma imagem.