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Se a medida do sucesso em política é a duração no poder, não vale a pena negar o sucesso de António Costa, em vias de completar uma legislatura no governo. Convém, porém, examinar esse sucesso para além da simples permanência em São Bento. De que foi feito, para que serve?

No princípio, não esteve força, mas fraqueza. As eleições de 2015 deixaram os partidos que formam a actual maioria em desespero. Durante quatro anos, tinham esperado colher o fruto da austeridade e do seu descontentamento. O país, porém, humilhou-os sem cerimónias, a começar pelo “candidato a primeiro-ministro” António Costa. O que fizeram então não foi apenas juntar-se para subir ao governo. Para lá ficar, deitaram fora bandeiras e manifestos, e aceitaram aquilo que durante anos haviam contestado. Mantiveram a pressão fiscal do ajustamento, exploraram as folgas do BCE, aproveitaram a recuperação registada desde 2013, e sim, satisfizeram o funcionalismo, mas na medida em que sacrificaram os serviços públicos e o investimento — como só eles, aliás, poderiam fazer, seguros de que, com o controle dos sindicatos e do jornalismo de causas, não haveria manifestações na avenida nem reportagens dramáticas nos canais de televisão. Esta é a história deste governo.

Assim se aguentaram, renunciando a todos os seus bordões e mapas: o PS esqueceu-se do “keynesianismo”; e o PCP e o BE,  da “saída do Euro” e da “reestruturação da dívida”. Lembram-se? Eram as fórmulas mágicas para esmagar o “neo-liberalismo”, libertar-nos da tutela europeia, ressuscitar a economia, salvar Portugal. Nunca mais ouvimos falar delas. Em vez disso, cativaram, desinvestiram, confundiram (como, agora, no caso das longas carreiras contributivas) — e cumpriram as metas europeias, que outrora repudiavam histericamente. Não há “governo de esquerda”, costuma gritar o PCP: mas há, é claro que há governo de esquerda: é este, a gestão conformada e cínica do status quo. Outro detalhe significativo: outrora, tudo isto teria sido motivo de intermináveis discussões e cisões — a marca de água da passagem das esquerdas pelo governo. O corrente sossego dá-nos a medida da falência político-ideológica dos partidos e movimentos que compõem a maioria. Em Portugal, depois da bancarrota e do ajustamento de 2011, a direita já não sabe o que é e a esquerda ainda não quer saber aquilo em que se tornou: um mecanismo de interesses e de dependências, que explora o país e a Europa através do Estado.

O sucesso deste governo traduz apenas o fracasso da sociedade portuguesa, que há mais de vinte anos carrega com despesas uma das economias que menos cresce na Europa. A dívida pública, facilitada pela confiança do euro e depois de 2012 pelas políticas do BCE, tem sido um dos últimos recursos da governação: por isso, continua a subir em termos absolutos, apesar de a conjuntura económica ter diluído temporariamente o seu peso no PIB. O outro recurso está nos impostos: tanto a dívida pública como a carga fiscal celebraram recordes no último ano. É assim, abusando do crédito europeu e da pressão tributária doméstica, que a oligarquia continua a garantir rendas a um certo número de segmentos sócio-profissionais, de quem espera conformismo e votos. É este o segredo: a capacidade oligárquica, numa sociedade envelhecida e dependente, de fazer pagar por todos o que só beneficia alguns. António Costa e os seus parceiros Catarina Martins e Jerónimo de Sousa puseram o país a caminho de lado nenhum – e chamam-lhe sucesso.

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