“Então esse cavalheiro conseguiu convencer-te de que era um homem de bem?!”
A pergunta é de Séneca, dirigida a Lucílio, nas suas cartas ao mesmo. Esta surge na carta n.º 42, a questão é retórica, feita com ironia na ponta da língua, mas a resposta vem na mesma. “Olha que um homem de bem não é coisa que surja e se reconheça por tal assim tão depressa! E sabes o que eu entendo aqui por “homem de bem”? Apenas o de segunda categoria, porque o de primeira é como a fénix, que só aparece uma em quinhentos anos”.
Força do destino ou não, parece que em Portugal andam a querer surgir não um, mas cinco homens de bem. André Ventura, António José Seguro, Henrique Gouveia e Melo, João Cotrim de Figueiredo e Luís Marques Mendes (aqui ordenados por ordem alfabética do primeiro nome, para não suscitar interpretações sobre o valor do bem e do mal de cada Homem).
Como contrapeso do ataque ao carácter de outro Homem, os candidatos têm aperfeiçoada a defesa, ou bajulação, em causa própria. Todos são modelos da seriedade, da responsabilidade, da estabilidade, da integridade, da coragem, da coerência e da independência. Todos são discípulos, admiradores, sementes deixadas para plantar o futuro começado por outros grandes Homens, igualmente sérios, íntegros, corajosos, independentes…. Sobre erros cometidos, não se lembram. Sobre dúvidas, reforçam que só têm certezas. Sobre incoerências, escudam-se no facto de os outros as poderem ter em maior número. Sobre as falhas, apontam as qualidades, que nem Deus (se falasse) admitiria para si mesmo.
De heranças, muito se tem falado. Eanes, Sá Carneiro e Soares que me perdoem, mas a herança da filosofia ainda explica melhor os vícios dos Homens. Desde o ad hominem às falsas dicotomias, as falácias imperam no discurso político e humano, mas cada vez com mais falta de humanidade. Nesta última falácia, a imagem complexa do mundo é dividida para nos fazer acreditar que só existem sempre duas saídas. Aproveitando o exemplo da última semana, que alimentou a ideia de que quem contra Maduro está, de Trump deve ser amigo; e vice-versa. A falácia das falsas dicotomias, em crescendo na política nacional e internacional, não é por acaso — acontece num momento de quase imposição ao reconhecimento de que existe um Bem e um Mal, e de que eles se escondem por detrás de indivíduos que os representam na Terra. Mas o reconhecimento de que o Bem e o Mal se escudam em esferas opostas e impenetráveis pode ser ingénuo, por negar a possibilidade de um Bem maldosamente disfarçado (que muitos têm pudor em classificar como Mal), e de um Mal carimbado como tal, que não é melhor que o Bem maldosamente disfarçado, mas que não é o único que deve suscitar reflexão.
Séneca continua a aconselhar Lucílio — “Se ele soubesse o que é um homem de bem não se julgaria já como tal, e talvez até perdesse a esperança de vir a sê-lo.” Os nossos candidatos presidenciais não só têm esperança de vir a ser “homens de bem”, como assim já se consideram inteiramente. Sobre política, tudo isto diz muito pouco. Sobre os Homens? Talvez diga qualquer coisa.
Perante um mundo a cair aos bocados, coberto ainda de guerra, de tratados e cartas cuja morte de quem as assinou parece também lhes ter ditado a morte prematura, os Homens transformam a grandeza num exercício de vaidade que faz lembrar os erros que cometemos no passado. Para que exista a vaidade de uns, parece ser preciso que outros nem espelho tenham para se olhar.
Séneca insiste — “Considera-te um homem feliz quando puderes viver sob olhos do público, quando as paredes da tua casa te protegerem sem te ocultar, paredes essas que a maioria imagina existirem não para que vivamos mais protegidos, mas para que prevariquemos mais às escondidas. (…) a nossa vida é tal que verem-nos de surpresa equivale a colherem-nos em flagrante delito”.
A vida dos Homens que se acham de bem é ensaiada de tal forma que, talvez para surpresa dos mesmos, lhes pudéssemos dizer que genuínos, nos parecem cada vez menos. Que a integridade, a independência e a coragem apregoadas saem sempre como um tiro pela culatra. Como combater o Mal se, nem em nós mesmos, o conseguimos ver? Os consensos, de que todos falam; a estabilidade, que todos querem; o respeito, que todos dizem praticar, e o progresso, que todos prometem galgar, parecem metas reclamadas antes da conquista. E a verdade é que, se apagarmos isto, resta muito silêncio.
Em quem votar então, no dia 18 de janeiro, para esta responsabilidade para “promotor” do Bem? Do outro lado do Atlântico, com a segunda eleição de Trump, veio uma ironia — a de que têm chegado ao poder Homens que já se acham “de bem” e que, cegos, utilizam essa mentira para caçar tudo o que para eles é o Mal. Numa era de caçadores, talvez fosse tempo de voltarem a surgir no poder os pensadores. Será que ainda nos faltam os quinhentos anos que Séneca ditou para aparecer esta fénix?
PS: Para os que possam estar interessados, as citações estão todas no maravilhoso “Cartas a Lucílio”, de Lucílio Aneu Séneca, reeditado em 2021, pela Fundação Calouste Gulbenkian.