Afinal, tudo começou há cerca de seis anos quando o governo de então (Sócrates, 2008) nacionalizou o BPN e fez gastar ao Estado português uma boa meia dúzia de milhares de milhões de euros com o pretexto de que “o risco era sistémico”. Cinco anos depois, Sócrates continuava a dar como pretexto para essa nacionalização a falência do Lehman Brothers que alegadamente desencadeara a maior crise financeira e económica desde 1929, como se o banco norte-americano pudesse ser comparado à chafarica do BPN, e repetia que tinha fôra “a melhor decisão na altura” (Jornal de Negócios, 28 de Março de 2008)…

Além do dinheiro que ainda estamos a pagar por causa disso, a funesta ideia de “salvar os acionistas do BPN” não caiu em orelhas moucas. Com o andar da crise, os bancos perceberam que, na pior das hipóteses, seriam todos eles salvos pelo Estado de uma maneira ou de outra. Foi certamente o que então pensou o Grupo Espírito Santo, cujo envolvimento com o Estado português era já bem conhecido há muito e orçava então por verbas muitíssimo maiores do que as do pequeno BPN como agora se está a descobrir.

Em todo o caso, foi algo semelhante que se passou mais tarde, a partir da chegada da troika com 12 mil milhões de euros de dívida para salvar os bancos portugueses. Nesse momento, o BES disse altaneiramente não precisar da ajuda do Estado, optando por fazer um aumento de capital da ordem dos mil e tal milhões junto dos seus próximos. Confesso a minha ingenuidade ao pensar, nessa altura, que a atitude do banco de se diferenciar deliberadamente não só da CGD estatal mas também do BCP e do próprio BPI, se deveria à arrogância da grande família tradicional de banqueiros – entretanto transformados em empresários de tudo e mais alguma coisa, desde que Cavaco Silva reprivatizou o banco – que assim pretenderia mostrar que não precisava de ajudas dos credores internacionais nem do novo Governo português…

Talvez já houvesse então quem percebesse o que se estava a passar mas, se assim foi, calaram-se como de costume e varreram a porcaria para debaixo do tapete. Agora é que ficámos todos a saber que a aparente arrogância da família não era mais do que um derradeiro artifício para impedir a entrada do Estado e da troika na contabilidade supercriativa à qual o GES já se dedicava há muito tempo. Tarde demais. Quando eu próprio escrevi há poucas semanas, fazendo coro com outros comentadores, que o facto de o governador do Banco de Portugal, do primeiro-ministro e do próprio presidente da República virem dizer que a situação do BES era “saudável” constituía uma notícia muito inquietante, pois uma declaração desse teor só poderia soar a falsa aos entendidos e dar dores de cabeça ao resto das pessoas.

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Infelizmente, os céticos é que tinham razão, como sucede em geral. E aí está. Neste momento, já é o governador do BdP que proclama ser indispensável que o Estado entre no capital do BES em vias de se esfumar na bolsa. E os novos administradores do BES, ao descobrirem a dimensão gigantesca do buraco, pretendem agora – sem piada – uma parceria público-privada de novo tipo para refinanciar aquele que chegou a ser o maior banco português. E por mais que não queiram, como Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque afirmaram de pés juntos e eu acredito neles, a verdade é que o Governo está a preparar-se para injetar não se sabe quantos milhares de milhões no banco, ficando virtualmente dono do “colosso verde”. Haja ainda um resto de dinheiro da troika para esse efeito, como se tem dito. Mas alguém terá de o pagar.

Ora, os bancos intervencionados nos últimos três anos, ao abrigo do programa de ajustamento com os credores, já começaram inclusivamente a devolver os empréstimos com alguns juros que algo compensam o Estado. Era o que deveria ter acontecido com o BES se os tentáculos do polvo não estivessem já roídos seja pela ganância dos proprietários, seja pelo desmoronamento do conglomerado de empresas e participações, seja pela simples incapacidade de navegar nas novas águas da contenção financeira, ou tudo junto, o facto é que agora é tudo mais tardio, mais gigantesco e mais difícil de absorver, se isso ainda for possível. Talvez seja por isso que Maria Luís não foi para Bruxelas, quem sabe?

E resta a hipótese conspiratória – onde há sempre uma ponta de verdade, nem que seja à posteriori – de que alguém esperou que o Governo terminasse o ajustamento, a troika se fosse embora e boa parte da população desse um suspiro, se não de alívio, pelo menos de esperança que as coisas ficassem por aqui, para reabrir a caixa de surpresas e ameaçar recomeçar todo o cenário dos cortes, da quebra da economia e do aumento do desemprego. Sem excluir do horizonte que haverá “primárias” do PS muito em breve e eleições legislativas em 2015 e presidenciais em 2016. O pânico que poderá apoderar-se de muita gente com a queda do “colosso verde” é suscetível, por seu turno, de influenciar todos esses processos eleitorais. Ou não será?