O Cónego Jeremias, tendo em conta que Lisboa vai ser palco de certas manifestações de gosto duvidoso, decidiu antecipar a sua ida para as termas. Encontrei-o, portanto, já de malas aviadas.

– Então, Senhor Cónego, de partida?

– Sim, porque não gosto nada de confusão. Também não gostei das comemorações do Dia de Portugal. Já não tenho paciência para ouvir esses discursos pós-modernos. Parece que, para agradar a uma série de descontentes e decadentes, fazem gala em denegrir a nossa História.

– Deve ser para evitar os excessos do nacionalismo …

– Então, quando festejarem os seus aniversários, essas pessoas deveriam também brindar às suas frustrações, preconceitos, complexos e traumas!

– Mas, não é verdade que o orgulho é um pecado e que os discursos nacionalistas podem levar a excessos racistas e xenófobos?

– Pois, isso de que o orgulho é pecado, pelos vistos, depende …

– Como assim, Senhor Cónego?! Não foi o pecado de Lúcifer quando se opôs a Deus e, por isso, foi expulso do Céu, bem como os seus anjos?!

– Sem dúvida. Por isso, essas marchas do orgulho são, por esta razão, não apenas anticristãs como diabólicas. Enquanto o louvável orgulho pelas glórias da nossa História é anatemizado pelos politicamente correctos, o orgulho associado a estilos de vida alternativos não só é promovido como principescamente subsidiado.

– Mas ser contra essas marchas não é ser contra as pessoas LGBT?

– Ora aí está um recorrente erro de percepção, como agora se diz. A Igreja é contra o orgulho que, como muito bem disse, é demoníaco, mas não é contra as pessoas LGBT, nem contra quaisquer outras. 

– Se Deus é amor, porque não aceitar todas as manifestações de amor?

– Se quer que lhe diga, todos os pecados se fazem por amor: rouba-se, por amor ao dinheiro; comete-se adultério por amor ao cônjuge do próximo; mente-se por amor à própria imagem; bebe-se demais por amor ao álcool; é-se preguiçoso por amor ao ócio, etc. Portanto, todos os pecados se cometem por amor! 

– Discriminar pessoas por razão das suas tendências não é falta de caridade?!

– Claro que sim, mas a caridade cristã obriga a corrigir quem erra, com a mesma determinação de João Baptista, quando censurou o adúltero Herodes, e de Jesus, quando expulsou os vendilhões do templo.

– Como sabe, há pessoas que entendem que só podem ser felizes através de opções afectivas que a Igreja não só não aprova como condena. Acha isto justo?

– Eu não tenho nada que achar, ou deixar de achar, mas seguir a doutrina da Igreja que, por sinal, ninguém é obrigado a cumprir. Sem estabelecer nenhuma comparação, também há quem, sem culpa, sinta necessidade de se alimentar em excesso, ou de comprar coisas desnecessárias, sem que essas inclinações façam aceitáveis, em termos morais, essas acções.

– E uma pessoa que se sente LGBT?

– O que importa não é o que cada um sente, pois também os casados sentem inclinação para outras pessoas que não o cônjuge. Quem quiser ser cristão, independentemente do que possa ou não sentir, deve ser coerente com essa sua opção. Como é óbvio, não faria sentido que uns quantos fossem dispensados dessa coerência até porque, se a Igreja o fizesse, então sim que estaria a ser discriminatória e injusta.

– Nesta matéria, a que obriga, então, a Igreja aos seus fiéis?

– Deus a todos pede que vivam a castidade, que é a caridade no que respeita à sexualidade humana. Solteiros e casados; leigos e padres; jovens e velhos; pessoas que sentem atracção por pessoas do outro sexo, ou não. Aos casados é pedida a fidelidade conjugal até ao fim, o que levou alguns contemporâneos de Jesus a dizer que, assim sendo, mais valia não casar (Mt 19,10). Aos sacerdotes e religiosos é exigida total abstinência sexual, o que, decerto, não é fácil para ninguém, nem sequer para os que receberam esse chamamento e graça (Mt 19, 11-12). A Igreja a todos exige castidade, mas de acordo com a sua condição. 

– Há alguém que, à partida, esteja excluído da salvação?

– Claro que não, porque ninguém peca pelo que sente e todos somos responsáveis pelo que, consciente e voluntariamente, fazemos. Os santos foram tentados, como também Jesus Cristo (Mt 4, 1-1), mas venceram as tentações.

– Mas uma tal exigência não é desumana, uma falta de caridade?

– Pelo contrário, é porque a Igreja quer o bem de todos – a sua felicidade terrena e a sua salvação eterna – que sofre, como São Paulo, pelos que seguem caminhos que não levam para o Céu: “muitos, de quem muitas vezes vos falei e agora também falo com lágrimas, procedem como inimigos da cruz de Cristo: o fim deles é a perdição (…) e fazem consistir a sua glória naquilo que é a sua vergonha” (Fl 3, 18-21).

– Quer dizer então que, para os ditos LGBT, não há esperança?

– Há tanta esperança como para qualquer outra pessoa, porque todos, com a graça de Deus, podem e devem ser santos. Também São Paulo teve que lutar e não foi pouco: “Foi-me dado o estímulo da minha carne, que é como um anjo de Satanás que me esbofeteia, a fim de não me orgulhar. Por cuja causa roguei ao Senhor três vezes que ele se afastasse de mim, mas Ele respondeu-me: ‘Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza.’ (…) Por isso me comprazo nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias, por Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cr 12, 7-10).