Faltam poucas semanas para terminar o ano. Contudo, creio que é seguro afirmar que o regresso de Donald Trump constitui, inequivocamente, o acontecimento mais consequente deste ano político. A recente publicação do documento de Estratégia de Segurança Nacional cristalizou a visão do mundo da actual administração norte-americana. Raros documentos espelham com tanta fidelidade o modo como Trump e a sua elite política e económica entendem as dinâmicas nacionais e internacionais. Por razões que se compreendem facilmente, dedicarei particular atenção ao modo como este documento concebe a relação com a Europa.
Este documento da administração Trump pode ser dividido em duas componentes: económica e cultural. O diagnóstico económico coincide com aquilo que as elites europeias já foram capazes de diagnosticar, embora seja estranho. Estranho porque, por um lado, no documento Trump defende de forma veemente que a soberania dos países é sagrada e não deve haver qualquer ingerência externa. No entanto, em seguida, elenca um conjunto de mudanças que exige que a Europa faça – ou seja, soberania para nós, mas não para vocês. É verdade que, ao longo das últimas décadas, o peso económico da Europa no PIB mundial tem vindo a descer. No entanto, é preciso colocar isto em perspectiva e perceber o que aconteceu.
É verdade que a Europa perdeu peso económico no mundo. No entanto, continua a ser um continente riquíssimo, com os melhores indicadores de bem-estar do mundo. O contrato social é diferente na Europa. Simplesmente, as expectativas dos cidadãos em relação aos bens públicos, à pobreza, ao acesso à saúde, à desigualdade são diferentes em relação aos seus congéneres americanos. E, por favor, não confundamos Europa com Portugal. Na Europa rica a classe média continua a viver muito bem, com padrões de vida que, não sendo iguais em termos de consumo individual à sua congénere americana, são absolutamente óptimos ao nível agregado. Os europeus escolhem ter menos riqueza individual para viver em países mais seguros, mais limpos, menos desiguais do que os Estados Unidos. Já vivi em países da Europa rica e nos Estados Unidos (na Califórnia e no Massachusetts). Nunca vi na Europa tanta gente a dormir na rua como na Califórnia, nem overdoses a meio da tarde como no centro de Boston.
O declínio da Europa é relativo e resulta de uma diminuição das desigualdades no mundo. Hoje, apesar de propaganda de esquerda, o mundo é muito menos desigual do que era há 50 anos. A entrada da China na Organização Mundial de Comércio e na globalização como um todo mudou fortemente os equilíbrios de riqueza regionais. Os efeitos da globalização foram assimétricos no mundo e dentro da Europa. Por um lado, devoraram primeiro as economias do sul, menos especializadas e cujo perfil era substitutivo e não complementar à China. Hoje, começam a devorar as economias complementares à China. O Mittelstand está em francas dificuldades. A Europa tem ainda muitos trunfos para responder. Tem uma das populações mais educadas do mundo. Naturalmente, ao contrário dos Estados Unidos, tem um problema de modelo de imigração. Pode, e deve, fazer reformas urgentes, como completar a união bancária, a união de capitais e fazer um mercado único de serviços, conseguindo com isso. Apenas com esta reforma, a Europa conseguiria um aumento muito substancial da riqueza em todo o continente.
Todavia, nada disto é relevante para Trump. Sejamos francos. Trump não está remotamente preocupado com a saúde económica da Europa, ou está-o apenas na medida em que a Europa possa ser um cliente importante para as indústrias americanas. No mundo de Trump, o ethos das elites da Europa é algo incompreensível: a ideia de cosmopolitismo racionalista alicerçado nas Luzes e construído nos escombros de um suicídio colectivo em meados do século XX. Houve um tempo em que os Estados Unidos também partilhavam estes valores. Acolheram milhões em fuga do suicídio europeu, incluindo uma grande parte da classe intelectual e académica que foram construir a civilização americana. Trump pode não gostar, nem compreender, mas os Estados Unidos e a Europa estão umbilicalmente ligados. Sem Estados Unidos, de resto, não existiria a União Europeia. O apoio político e económico à Europa, e à sua integração, fez parte integral da política de containment desenhada no longo telegrama de Kennan.
Na componente cultural, aí, sim, Trump tem um problema profundo com a Europa. Vale a pena citar o documento com algum detalhe: A Europa enfrenta um “fim civilizacional” devido “às actividades da União Europeia e de outras organizações supranacionais que colocam em causa a liberdade política e a soberania, assim como as políticas de imigração que estão a criar raiva entre o eleitorado, assim como a liberdade de expressão e o fim da oposição política, o declínio da taxa de natalidade, a perda da identidade nacional e da auto-confiança”. O texto atinge o pináculo quando diz: “a longo prazo, é altamente plausível que dentro de poucas décadas, alguns membros da NATO se tornarão maioritariamente não-europeus”.
O conteúdo do parágrafo anterior é claro sobre as intenções de Trump que, brilhantemente, Gideon Rachman apelidou no Financial Times da última semana como uma “projecção” à velha maneira freudiana. As preocupações de Trump sobre a Europa são simples de traduzir. Em primeiro lugar, as políticas de imigração europeias são interpretadas não como questões de gestão demográfica, económica ou humanitária, mas como instrumentos de transformação civilizacional. Simplesmente Trump está preocupado que a Europa, tal como a América dentro de umas décadas, deixe de ser dominada por brancos. É, portanto, acima de tudo uma posição xenófoba e racista. Em segundo lugar, a preocupação com a liberdade de expressão, ainda que retoricamente invocada, é selectiva—Trump refere-se implicitamente ao enfraquecimento da oposição política aos valores cosmopolitas e liberais que dominam as instituições europeias. Trump gostava que movimentos políticos como o MAGA fossem também dominadores na Europa. No entanto, convém lembrar, que na Europa ainda mandam os eleitores europeus. Em terceiro lugar, Trump e os bros do tech estão preocupados – e muito – com a capacidade regulatória da União Europeia que, com todas as suas dificuldades, continua a impor os padrões no mundo. Na verdade, a aproximação dos bros do tech a Trump revela não a sua força, mas a sua fraqueza e a necessidade de que a Administração americana utilize a geoeconomia — o movimento mais recente da política internacional — para conseguir obter benefícios nas negociações com outros blocos económicos e regulatórios. Convém lembrar que a Europa como um todo tem um número de consumidores destes produtos bastante superior ao do Estados Unidos. A regulação pode ser difícil para Sillicon Valley.
Neste final de 2025, a questão não é se a Europa será aquilo que Trump teme. É evidente que a Europa teme Trump. A questão é saber se a Europa terá a convicção e as elites políticas à altura para continuar a ser aquilo que é, apesar do medo que Trump tem dela. Trump só entende uma linguagem: a força. Só respeita quem lhe faz frente ou quem tem algo para trocar no mundo transacional.
P.S.: Em todo este documento, Trump passa a imagem de que, se os Europeus forem bons aliados, aumentando o investimento em despesa por exemplo, a NATO será uma aliança sólida. Alguém acredita que, mesmo fazendo isso, o Artigo 5 não é neste momento mais do que um tigre de papel?