À medida que as manchetes se multiplicam com alarmismo em relação às tarifas e guerras comerciais por parte de Washington, uma curiosa amnésia instala-se nos círculos políticos norte-americanos e europeus. O tom dos espaços de comentário sugere que estamos a entrar em território desconhecido, como se o protecionismo económico fosse uma novidade no continente norte-americano. No entanto, esta nova crise requer ser encarada com algo mais valioso do que pânico: perspectiva.
Desde 1840, tanto os Estados Unidos como o Canadá testemunharam vários ciclos de nacionalismo económico, todos marcados por padrões recorrentes. Compreender essas dinâmicas não é um mero exercício académico – é uma necessidade estratégica para evitar reações impulsivas num momento fortemente emotivo.
A frase – traduzida livremente do inglês – “Deêm-nos um tarifa protecionista e teremos a maior nação da Terra”, poderia ter sido proferida por Donald Trump, mas é, na verdade, atribuída a Abraham Lincoln, enquanto congressista em 1847. Três décadas mais tarde, em 1878 no Canadá, Sir John A. MacDonald, Primeiro Ministro do país, viria a subscrever a mesma lógica, ao instituir a National Policy, cuja medida principal consistia numa tarifa protecionista. Avançando mais três décadas até à eleição canadiana de 1911, encontramos outro paralelo ilustrativo: o líder conservador Robert Borden conquistou o poder com uma campanha em defesa das tarifas protecionistas, alertando que a sua remoção colocaria em risco a soberania económica do país. Esta associação entre grandeza nacional e barreiras comerciais persistiu ao longo dos séculos e continua a manifestar-se nos dias de hoje.
Contudo, fixarmo-nos apenas nas tarifas obscurece um padrão mais significativo. O nacionalismo económico tende a emergir quando três forças convergem: alterações da política doméstica, tecnologias disruptivas e tensões geopolíticas.
As tarifas impostas por McKinley em 1890, às quais Trump continua a referir-se fervorosamente, não se limitavam ao comércio. Coincidiram com a ascensão industrial americana, a afirmação do país como potência internacional e política doméstica em transformação, marcada pela tensão entre um populismo agrário e uma comunidade urbana cada vez mais industrializada. Para muitos políticos americanos, as barreiras económicas eram um instrumento para remendar uma nação dividida. Reconstrução civilizacional e conflitos comerciais eram, assim, duas faces da mesma moeda. No Canadá, o cenário era semelhante: rivalidades entre províncias e disputas entre o governo federal e os poderes locais sobre políticas económicas marcaram o panorama político desde a fundação do país.
Embora tenham origens frequentemente alheias à economia, as guerras comerciais geram inevitavelmente consequências económicas – muitas das quais manifestam-se sobre a forma de danos colaterais involuntários. As tarifas de Smoot-Hawley de 1930 não salvaram os empregos americanos; pelo contrário, aprofundaram a Great Depression. No Canadá, o National Energy Program da década de oitenta, que incluía uma distribuição “justa” das receitas petrolíferas, não garantiu a independência energética; antes, criou divisões regionais profundas ao mesmo tempo que afastou investidores.
A guerra comercial de Donald Trump reflete algo mais profundo do que disputas sobre aço e alumínio. Surge da convergência das três forças mencionadas em cima, sob a forma de: disrupções tecnológicas impulsionadas pela Inteligência Artificial, uma mudança no equilíbrio geopolítico entre os Washington e Pequim e uma polarização interna cada vez mais acentuada.
O que verdadeiramente não tem precedentes nos dias de hoje não é o regresso do nacionalismo económico, mas sim o grau de integração económica mundial que este ameaça desfazer. Quando Lincoln defendia tarifas em 1847, cadeias de distribuição transfronteiriças eram quase inexistentes. Quando o Canadá implementou a National Policy, os mercados financeiros não estavam interconectados digitalmente. Hoje, os riscos são exponencialmente maiores – o comércio diário entre o Canadá e os EUA ronda os 3.6 mil milhões de dólares, criando uma interdependência que desafia qualquer tentativa de ressuscitar o protecionismo económico.
Ainda assim, a história oferece motivos para algum otimismo. Ciclos anteriores de nacionalismo económico cederam, invariavelmente, lugar a soluções pragmáticas. O Auto Pact, por exemplo – que eliminou tarifas no setor automóvel entre o Canadá e os Estados Unidos – surgiu precisamente como resposta às distorções criadas por medidas protecionistas.
Em termos gerais, o nacionalismo económico tende a alcançar o seu pico antes de uma transformação sistémica significativa. Os sentimentos nacionalistas atuais podem ser um reflexo de uma reestruturação fundamental da ordem económica global. Para políticos e líderes empresariais, a mensagem é clara: não cedam ao pânico, mas sim estudem os padrões históricos. A crise presente não surgiu do vácuo – é antes o desfecho de um ciclo recorrente nas relações económicas da América do Norte. O verdadeiro desafio não reside em impedir o nacionalismo económico, mas sim em gerir as suas manifestações de forma estratégica.
Este fenómeno exige algo mais do que pânico impulsivo ou rejeição por complacência. O nacionalismo económico é uma força que não deve ser ignorada, mas os seus padrões são conhecidos, os seus ciclos previsíveis e os seus desafios, geríveis. A verdadeira tarefa não é lutar contra a corrente, mas sim navegá-la com a sapiência e prudência adquiridas através da sua compreensão histórica. Quando todas as notícias pedem uma reação imediata, a capacidade de reconhecer padrões não é apenas útil – é imperativo para assegurar a nossa prosperidade e segurança.