Em todo o mundo existem populações insatisfeitas com as suas vidas e que criticam os governos, da mesma forma que ainda há fome em muitas regiões do globo, guerras e uma grande ausência de conciliação dos interesses em presença, além da prolongada incapacidade de reduzir o abismo existente entre os muito ricos e os muito pobres. É verdade, mas sem negar a razão das queixas, temos também razões para concluir que nunca na história dos povos tantos viveram tão bem como hoje, sendo que isso é principalmente o resultado da tecnologia e não tanto a acção dos governos.
Portugal não é excepção e a maioria dos avanços na qualidade da nossa existência deve-se às tecnologias que entraram nas nossas vidas em muito pouco tempo e quase sem se dar por isso. Para o demonstrar de forma simples e há falta de melhor, recorro à minha própria experiência de vida, que penso não diferir grandemente do que podemos chamar a classe média portuguesa, apesar de ter nascido numa família muito pobre, mas beneficiando em muito da existência do ensino público já então generalizado, onde encontrei um professor de grande qualidade humana e profissional.
Foi o ensino público que me permitiu alguma diferenciação na obtenção de um posto de trabalho compensador, devido já então a factores organizativos e tecnológicos no sector industrial em que ingressei e que me permitiram, como a muitos outros, aceder à classe média portuguesa. Hoje estou muito mais velho e a beneficiar de uma reforma pública e de algumas poupanças feitas durante o meu percurso de 60 anos de trabalho em várias empresas, todas tecnologicamente avançadas, quer como operário, dirigente e mais tarde como empresário. Um percurso normal no meio em que nasci.
Aos cinquenta anos tive um AVC e se sobrevivi até hoje isso ficou a dever-se ao medicamento que tomo diariamente, cuja qualidade tem melhorado com o tempo e com os avanços científicos e tecnológicos dos últimos trinta anos. Estou certo de que o mesmo aconteceu com milhões de famílias em todo o mundo, por força das descobertas mais variadas nos sectores da Saúde.
Como disse, estou hoje reformado e a beneficiar de um número sem fim de novas tecnologias. Por exemplo, tenho em casa uma televisão que me permite saber o que se passa ao meu redor e em todo o planeta, hora a hora, ver filmes de hoje como os do passado, vejo os jogos do Sporting e sem sair de casa. No computador e no telemóvel ouço as músicas de que mais gosto, estou em contacto com a família, pago as minhas despesas e impostos, controlo as minhas contas bancárias e participo em tertúlias de amigos com quem troco ideias e onde as comuns divergências são tratadas de forma civilizada. Como posso ver e falar sempre que queira com os meus filhos e netos que vivem a quatro mil quilómetros de distância, com a probabilidade de o fazer agora com maior frequência do que fazia antes.
Na garagem, que abro e fecho por recurso a um simples botão, tenho um automóvel elétrico de nível médio que carrega automaticamente na garagem a energia necessária e que tem um nível de comodidade, de economia e de segurança impensáveis há trinta anos. Além disso, estou ligado a todos enquanto conduzo, por via de uma simples instrução verbal e o estacionamento é feito, com frequência, de forma automática. Além disso, viajo e estaciono o carro nos parques por recurso há nossa portuguesa via verde e a ida à oficina será no máximo uma vez por ano. Graças à tecnologia estou informado através da rádio e ouço as minhas músicas preferidas enquanto conduzo através da Spotify e nunca me engano no destino graças aos mapas digitais, como benefício dos mais avançados sistemas de segurança. Mas não só, a Google compensa as minhas falhas de memória e resolve num instante a maioria das minhas dúvidas sobre quase tudo.
Aceito que a sorte de ter estado no lugar certo, alguma coisa terá tido a ver com a minha presente qualidade de vida, hoje apenas ensombrada pelos erros e pela ignorância que constato existirem nos sucessivos governos portugueses, razão principal de tanta pobreza que nos rodeia e nos aflige. Como me aflige o apelo ao modelo Robin dos Bosques de ir buscar aos ricos o que o saber, a tecnologia e a força do trabalho não produzem.
Nos últimos anos, conclui que no nosso País o principal problema é o baixo nível de formação de uma grande parte da população portuguesa e passei a advogar que será através da cobertura e da qualidade das nossas creches e do nosso ensino pré-escolar, com educadores altamente qualificados, boa alimentação e transporte, que podemos ultrapassar o círculo vicioso do subdesenvolvimento e iniciar o edifício de um País mais justo e menos desigual. A chave está na formação dos comportamentos e das competências das nossas crianças até há entrada no ensino oficial aos seis ou sete anos, de forma a melhorar as experiências e a reduzir as diferenças de desenvolvimento existentes entre as crianças oriundas das famílias mais pobres em relação às crianças das famílias de maiores recursos, diferenças que hoje se mantêm na qualidade dos empregos e ao longo da vida. Quanto à tecnologia, essa vai continuar a empurrar-nos para a frente a caminho de uma vida cada vez mais satisfatória, ficando apenas com a tristeza de já não ver como será a vida das pessoas no final deste século, nem experimentar as novas tecnologias que, entretanto, nos chegarão.