Uma das mais tolas ideias em curso é a de que António Costa e Mário Centeno estariam a enxertar na esquerda uma velha noção da direita: as contas certas. António Costa tem aproveitado a tolice, para dizer que, com efeito, a sua prioridade é provar que o PS, com o apoio da extrema-esquerda, pode governar sem défices nem aumento de dívida. Não duvido que Costa esteja a tentar fazer isso. Por esta razão muito simples: não tem alternativa. Na terça-feira, a Comissão Europeia manteve Portugal na lista de países cuja estabilidade macroeconómica é duvidosa (baixa produtividade, grande endividamento, etc.). Quem emprestaria a Costa para fazer défices como Sócrates em 2009 ou em 2010? Costa, Centeno, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins não têm escolha. Mas não estão, com isso, a enaltecer a causa das contas certas.

Pelo contrário: podem até estar a desacreditá-la. É que para Costa, Centeno e os seus companheiros de estrada, contas certas, mesmo quando a conjuntura económica é favorável, consistem apenas em aumento de impostos e em cativações (nesta proposta de Orçamento, são 590 milhões — a diferença entre um excedente de 0,2% e um défice de 0,1%). Os números variaram nestes últimos dias, revelando a ginástica de Excel por detrás dos documentos, mas as linhas são claras: a carga fiscal e as contribuições sociais sobem (até 35,1% do PIB), a despesa agrava-se (0,1% do PIB), e a dívida pública expande-se em termos absolutos (para 261 mil milhões de euros). De resto, há regras que mudam mais uma vez (por exemplo, no Alojamento Local), e excepções para isto e para aquilo, sem garantia de estabilidade. A dependência da conjuntura externa, sobretudo das políticas do BCE, é total.

As contas certas de Costa e de Centeno são feitas da incerteza de um país à mercê de um Estado sem escrúpulos. Repare-se na actualização dos escalões do IRS. Funciona, de facto, como uma armadilha para melhorias de remuneração superiores a 0,3%. Segundo contas da Deloitte, quem, ganhando 1000 euros, tiver um aumento de 10 euros (1%), acabará a pagar mais 30 euros de IRS. Eis o país das esquerdas portuguesas: um país onde um aumento de ordenado pode significar uma perda de rendimento. O melhor, portanto, é ficar a ganhar o mesmo: ser pequenino, ser pobrezinho, ser dependente, não fazer ondas, e conformar-se com o que tem. É esta mediocridade que Costa, Centeno, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins estão a gerar há quatro anos. Já houve tempos em que os portugueses tiveram outras aspirações.

Contas certas são, para Costa e Centeno, manter a despesa do Estado em 43,3% do PIB, e forçar a receita, dê por onde der, a subir para 43,5%, a fim de chegar ao excedente de 0,2%. O Orçamento de Estado “não traz nenhuma surpresa para os portugueses”, disse o ministro na conferência de imprensa. Pois não. O previsto “excedente pago pelos contribuintes” é bem o que poderíamos esperar desta esquerda que temos, entrincheirada no Estado, e decidida a sacrificar a sociedade para alimentar os grupos de interesse que tenta clientelizar (daí o descongelamento das carreiras na função pública, que levará na prática ao aumento de 3% de remunerações exigido pelo sindicalismo comunista). É suposto aplaudirmos?

Eis uma boa ocasião para as direitas esclarecerem que as suas “contas certas” não são as de Costa e de Centeno, mas que correspondem a outra ideia de Estado e de sociedade, e que portanto serão obtidas de outra maneira e com vista a outro fim: a autonomia crescente dos indivíduos, das famílias e das empresas, num horizonte de estabilidade e com um Estado sóbrio e eficiente. Se as direitas portuguesas não forem capaz de explicar isto, então de facto servem para pouca coisa, a não ser para revezar o PS quando a conjuntura muda, o dinheiro acaba e é preciso limpar os estábulos.