Nem bandeira, nem hino, nem fado, nem sardinhas. O que melhor representa o país em que nos tornámos são as empenas desses prédios de má construção cobertas por murais vistosos. Os prédios precisam de obras, à volta, nos passeios o lixo vai ficando… mas o que é que isso importa?

Marvila

Os painéis são tão fotogénicos e geram notícias tão positivas! Há sempre um artista empenhado numa causa que vai para ali transmitir a sua mensagem, um residente que declara que agora até dá gosto viver no bairro, um jornalista sem perguntas sobre como vai ser a manutenção da pintura, ou sobre a humidade que se vislumbra nos outros pontos da fachada ou sobre a falta de isolamento térmico daqueles prédios…

Portugal é hoje uma destas empenas coloridas, invariavelmente apresentada como inovadora e progressista, obviamente para ver ao longe. Muito ao longe. Mas fica tão bem nas fotografias, não fica? E nos guias que se distribuem aos turistas que detestamos mas de que dependemos cada vez mais? Mas ao pé, e tal como acontece com estes prédios de má construção com as suas empenas intervencionadas, Portugal deixa de fazer sentido: no meio de uma epidemia descobrimos que a linha de atendimento da saúde tem cada vez menos meios, que um professor é agredido a cada três dias, que num hospital de Lisboa, uma médica grávida foi vítima de uma tentativa de agressão por parte de um doente (mais um caso de agressão em hospitais e centros de saúde a juntar aos acontecidos recentemente em Águeda “uma mãe agrediu uma médica que ficou com uma mão partida; Vila Real “clínico sofreu ferimentos ligeiros”…); que temos de dar graças aos céus por a Bulgária estar na UE porque assim, pelo menos durante alguns anos, há sempre um país pior que o nosso e depois temos sempre a Albânia, apoiar a entrada da Albânia na UE é o que nos resta para ficarmos um bocadinho menos perto do fundo da tabela.

Mas esses factos não são suficientes para que tiremos os olhos da fachada. Desde que as pessoas estejam focadas na fachada tudo à volta pode ruir. Esboroar-se.

Quinta do Mocho

O  regime do fachadismo é na verdade um estado avançado do socialismo, mais propriamente do socialismo da decadência. Porquê socialismo? E porquê da decadência? Comecemos pela explicação da decadência: somos uma sociedade em que se morre mais do que se nasce, em que as gerações actuais garantem o seu bem estar à conta das poupanças das gerações futuras (a propósito, o Brasil conseguiu aprovar a reforma do seu sistema de pensões, sim a tal que nós já nem tentamos fazer!) em que, como é próprio dos processos de decadência, se ilude o fracasso num jogo de absurdos: os mesmos deputados que despenalizaram o acto de quem pratica a eutanásia aos humanos decidiram que deixar um animal à “porta de um abrigo para se livrar de ter de lhe prestar cuidados vai ser punido com seis meses de prisão”. Não só aquilo que nas notícias é referido como “se livrar de ter de lhe prestar cuidados” pode querer tão só dizer que não se tem dinheiro para pagar a hemodiálise ao gato ou a quimioterapia ao cão, como há bem pouco tempo a prisão de uma mulher que abandonara o filho recém-nascido no lixo motivou indignação e até uma visita ministerial a essa mesma mãe. Se essa mulher tivesse abandonado um cão ou um gato recém-nascido quem lhe mostraria solidariedade?

Resolvida a decadência (o uso do verbo resolver é neste caso um eufemismo pois a decadência não se resolve, entende-se e já é muito)  passemos ao socialismo: o fachadismo é o estado natural do socialismo. Não quero com isto dizer que os não socialistas não tentem também recorrer ao fachadismo. Tentar, tentam simplesmente não gozam da simpatia militante dos jornalistas, activistas, artistas e pessoas apresentadas como estando preocupadas com os direitos e sofrimentos alheios. Consequentemente o fachadismo dos não socialistas é automaticamente desmontado como o cenário que efectivamente é. Já com o socialismo o caso é bem outro.

Marvila

Para começar o socialismo mantém-se acima das críticas pois é avaliado pelas suas intenções (e estas como acontece com a causa maior da igualdade são invariavelmente apresentadas como bondosas) e não pelos seus resultados. O socialismo, tal como os adolescentes falha sempre culpa dos outros. Ou seja o socialismo é avaliado pelo seu fachadismo. Só quando a fachada implode é que a realidade se impõe. Em 2011 foi preciso que o país falisse para que ruíssem as fachadas do universo de José Sócrates. Em 2020 o cenário é outro: António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa andaram anos a saltitar de fachada em fachada. Agora jogam às escondidas para ver se acertam no momento em que, qual castelo de cartas, essas fachadas vão cair e arrastar o outro. Mas nem um nem outro estão feitos para enfrentar a realidade. Eles são nativos do fachadismo.