É deprimente ver a narrativa presente na imprensa e na sociedade no nosso país que a União Europeia (UE) é “impotente”, “inapta”, “ineficaz”, incapaz de se afirmar na ordem mundial, vassala dos Estados Unidos, tímida perante a China, e temerosa da Rússia. O vosso cronista faz um esforço genuíno para perceber o porquê de portugueses, que são europeus e membros da UE, sentirem esta necessidade de desvalorizar e diminuir o que fazemos com um bloco de países unidos num projeto comum.

Talvez seja o facilitismo de culpar os eurocratas, esses não-eleitos nos corredores do poder de Bruxelas, que em Portugal se veem como longínquos e deslocados, mas que ao mesmo tempo roubam a soberania dos Estados Membros? Outro ponto de partida é a complexidade do projeto, dos múltiplos níveis de decisão, e, na lógica de Kissinger, não hã só uma pessoa a quem se telefona se for preciso? Ou então é para ser uma voz do contra? Em oposição aos números observados no nosso país não só de aprovação por pertencermos à UE, mas também da elevada satisfação com o funcionamento e as instituições da mesma?

Independentemente da razão, é frustrante ver o debate na nossa sociedade sobre “a UE está atrasada, a UE não faz o suficiente, a UE está desnorteada” no que se trata da situação da Ucrânia. Impõe-se, e este espaço é o ideal para o fazer, apontar um conjunto de factos e de dados que normalmente não são mencionados quando se quer desdenhar o que fazemos no velho continente.

A UE já providenciou perto de 165 mil milhões de euros para apoiar a Ucrânia e os seus cidadãos, dos quais mais de 84 mil milhões foram em apoio financeiro, económico e humanitário. No que toca ao apoio militar, foram canalizados quase 60 mil milhões de euros, 6,1 mil milhões através do mecanismo European Peace Facility, e 53,5 mil milhões diretamente dos Estados Membros. Este esforço inclui treino direto de soldados ucranianos, contratos comuns para a aquisição de munições e mísseis, e um acordo conjunto de segurança com Kiev. Este apoio vai muito para além da guerra, com linhas de apoio na justiça, no desenvolvimento, nas infraestruturas, na conectividade, na proteção de crianças, e na investigação e acusação de crimes de guerra.

No apoio diplomático e político, foram instituídas sanções severas contra a Rússia para enfraquecer a sua economia. Além disso, a UE concedeu à Ucrânia o estatuto de país candidato à adesão, enviando uma mensagem clara que o futuro da Ucrânia é na família europeia. E a UE tem estado sempre ao lado de Kiev quando se trata de fazer pressão sob a Administração Trump para não “dar as chaves” a Putin. Claro que o interesse é multifacetado; afinal, uma vitória contra Moscovo por parte de Kiev é uma forma de não termos as tropas russas nas fronteiras de outros países europeus. No entanto, a UE podia ter uma posição menos conflituosa (como foi/é o caso das tarifas) e não o tem.

E até a nível nacional há esforços significativos e meritórios. A Alemanha é um dos maiores contribuidores de ajuda militar, com sistemas de defesa aérea avançados como os Patriot, tanques Leopard e munições de artilharia, com um compromisso que já ronda os 18 mil milhões de euros. O Reino Unido forneceu tanques Challenger 2 e mísseis de cruzeiro de longo alcance Storm Shadow. A França tem sido um fornecedor constante de sistemas de artilharia de alta precisão CAESAR self-propelled howitzer.

Os países bálticos, Estónia, Letónia e Lituânia, e a Polónia, devido à sua proximidade geográfica e à história de domínio soviético, têm tido contribuições significativas, usando a percentagem do Produto Interno Bruto, de respetivamente 2,5%, 1,82%, 2,08% e 1%. Na Escandinávia, Dinamarca, Noruega e Suécia, juntaram-se para financiar a aquisição de armamento americano para a Ucrânia no valor de 500 milhões de dólares, e a Dinamarca tem enviado tanques, sistemas de artilharia, munições e até jatos de combate F-16. E Portugal comprometeu-se a fornecer pelo menos 126 milhões de euros em apoio militar, incluindo contribuições financeiras e equipamentos como tanques Leopard 2A6.

E quanto ao argumento que a UE depende dos Estados Unidos para a sua proteção, e que tomou decisões erradas ao nunca ter tratado disso antes desta crise? Com certeza! Estamos todos de acordo. Porém, é errado dizer que a UE não aprendeu com esses erros, algo que se torna visível com o plano ReArm Europe com a disponibilização não só para a aquisição rápida de armamento, mas também na aposta na produção interna, no desenvolvimento de novas tecnologias, e na atenção à componente económica e social que resulta de tal investimento.

O vosso cronista não está a dizer (apesar de admitir que por vezes pode parecer) que a UE é perfeita. Não, não é. E há muito para fazer para a tornar mais efetiva, mais dominante, mais resiliente. No entanto, também não é a desgraça e o desastre que muitos teimam em dizer ser.