Após três anos de governo PS e com eleições daqui a 9 meses, as regras do debate político mudaram: por um lado, a culpa do que está mal passou a ser de Costa; por outro lado, a verdade começou a vir ao de cima, expondo como o governo incumpriu sucessivamente as garantias e as promessas feitas. Mas há mais: com o passar do tempo, ficou também exposta uma abordagem “faz-de-conta”, que consiste em montar diligências (políticas e administrativas) para transmitir a aparência de se estar a resolver um determinado problema – sendo entretanto evidente que o problema ficará por resolver e que essas diligências apenas servem para que o governo afirme estar em cima do acontecimento.

Um dos exemplos mais sofisticados desta abordagem “faz-de-conta” está na Educação e na Parque Escolar. Para a requalificação das escolas, que o ministério da Educação elegeu como prioritária e em relação à qual tem feito inúmeras declarações de compromisso político, o governo tem lançado concursos públicos financeiramente inviáveis e aos quais as empresas não apresentam propostas. Ou seja, para além de promessas e anúncios de verbas, nada realmente acontece.

Veja-se o caso da Escola Alexandre Herculano, no Porto. Em 2011, havia um projecto de recuperação orçamentado em 14 milhões de euros – investimento elevado que, no período de contenção financeira 2011-2015, foi suspenso. Cinco anos depois, em 2016, o edifício estava ainda mais degradado. E, no início de 2017, quando a escola teve de fechar brevemente por falta de condições (chovia nas salas), e após desentendimentos entre o Ministério e a Câmara Municipal do Porto (CMP), o ministro da Educação garantiu que o assunto o preocupava desde a sua tomada de posse e que era “agora preciso actuar”. Percebeu-se, então, que a solução passaria por a CMP assistir o Ministério no processo (para se obter fundos comunitários) e que o projecto havia sido revisto para menos de metade do orçamento original (entre os 6 e os 7 milhões de euros), opção que desde logo foi assinalada por especialistas como inviável num edifício com aquelas características: segundo eles, era “uma forma de não se fazer a obra”. O tempo passou e só em Outubro de 2018 é que o concurso público para a requalificação da escola foi finalmente lançado. Mas, conforme os avisos previram quase dois anos antes, os resultados mostraram que o novo projecto era mesmo inviável: nenhuma das 14 empresas interessadas no concurso apresentou proposta – e várias assinalaram que o valor-base de 7 milhões era insuficiente para a empreitada.

E agora? Agora volta-se à estaca zero e a requalificação não avançará tão cedo. Mas isso não impede que o ministro da Educação afirme que “a requalificação da Escola Secundária Alexandre Herculano, no Porto, é uma prioridade para o Governo, conforme tem ficado demonstrado no processo de articulação com a Câmara do Porto”. Ou ainda que “trabalhará afincadamente” para que a obra se inicie no mais breve prazo. Ou seja, a versão oficial é que o governo fez tudo ao seu alcance e que continuará a fazê-lo em 2019. Só que esta versão oficial tem dois problemas. O primeiro é que ignorou os avisos, em Janeiro de 2017, de que o novo projecto de requalificação era financeiramente inviável e que mantê-lo corresponderia, na prática, a garantir que a obra não seria feita.

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