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Civilização

O homem que matou Liberty Valance

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A fundação da sociedade ordeira não teve, ao contrário do que se pensa, origem no exemplar representante da lei. O verdadeiro herói fundador permaneceu desconhecido. Em sua substituição ficou a lenda.

Os westerns são provavelmente os filmes em que as questões políticas da lei, da autoridade e do que constitui uma comunidade se encontram melhor expressas. A razão simples e óbvia disto é que nada se encontra, nesses domínios, adquirido, e tudo está em processo de constituição. Os personagens, nos grandes westerns, representam as forças ambíguas e contraditórias que chocam entre si no processo da construção da comunidade política. Um óptimo pequeno livro do filósofo americano Robert Pippin (Hollywood Westerns and American Myth) explora este óbvio para lá do óbvio, com grande subtileza e sensibilidade, a partir de três grandes filmes: Red River, de Howard Hawks, e The Searchers e The Man Who Shot Liberty Valance, ambos de John Ford. Revi recentemente este último, e não me custa nada concordar com o que Pippin diz, que é em muito semelhante ao que vou escrever. Não sem alguma má-consciência, devo dizer. A grandeza do filme aconselha a não o reduzirmos a nenhum dos seus muitos planos, mesmo que o plano seja claramente essencial.

A história é relativamente simples de contar. Um velho senador, Ransom Stoddard (Jimmy Stewart), regressa com a sua mulher, Hallie (Vera Miles), a uma terra onde ambos viveram no passado, Shinbone, para assistir ao funeral de um velho amigo, Tom Doniphon (John Wayne). Pouco depois de saírem do comboio, Stoddard é entrevistado pelo jornal local, que não quer perder a oportunidade de ouvir a grande personagem. Começa então um longo flashback, que dura praticamente todo o filme, em que é narrado o conflito entre Stoddard e o pistoleiro Liberty Valance (Lee Marvin), cuja morte em duelo com Stoddard, então um jovem advogado acabado de chegar à terra, proporcionou o início da sua celebridade e da sua gloriosa carreira política e antecedeu o seu casamento com Hallie. Finda a entrevista, e depois de um último olhar ao caixão de Tom (de facto, não assistem ao funeral), Stoddard e Hallie retornam a Washington, ambos concordando, no comboio, em passarem os últimos anos das suas vidas em Shinbone, onde está o seu coração.

O essencial está, é claro, no flashback, que descreve uma situação muito próxima daquilo que os filósofos chamam “estado de natureza”, onde a lei e a autoridade são, no mínimo, precárias e onde o xerife, Link Appleyard (o magnífico Andy Devine), treme como varas verdes ao simples som da voz de Liberty Valance. Nessa espécie de estado de natureza, três figuras são centrais: Liberty Valance, que representa o estado de natureza na sua mais pura dimensão de violência, Stoddard, que emblematiza as forças que visam a constituição de uma comunidade política ordeira – e Tom Doniphon, o individualista que tem um pé em cada uma das ordens que se opõem. Além de Hallie, a filha de emigrantes suecos por quem Tom se encontra apaixonado e com quem pretende casar. A relação entre Tom Doniphon e Hallie é um outro aspecto do filme claramente central. A troca de Tom por Stoddard por parte de Hallie é, também ela, uma manifestação do abandono do estado de natureza – um abandono que é, neste caso, uma perda grave tanto para Tom como para ela, uma evidência que percorre o filme de uma ponta a outra.

Stoddard, que Tom trata por “Peregrino”, é então a figura da constituição de uma sociedade política ordeira. Cruelmente sovado por Liberty Valance aquando da sua chegada, numa diligência, a Shinbone, rapidamente procura instruir os habitantes no império da lei. Munido dos seus livros, dá aulas sobre a Constituição, colabora com Peabody, o proprietário do jornal local, o Shinbone Star, e ensina Hallie a ler e a escrever. De uma indiscutível coragem pessoal, é o perfeito representante do estado civil a vir. Pretende, por assim dizer, transformar o deserto num jardim. E, na mais simbólica imagem do filme, substituir as rosas de cacto que Tom oferece a Hallie por “rosas reais”. O duelo vitorioso com Liberty Valance realiza na perfeição a figura do herói civilizador.

Acontece, no entanto – e isso é revelado por um flashback de Tom Doniphon dentro do flashback de Stoddard na sua entrevista aos jornalistas locais -, que quem verdadeiramente matou Liberty Valance não foi Stoddard, inábil com as armas, mas Tom Doniphon, que, avisado por Hallie do duelo, dispara, sem por ninguém, excepto pelo seu criado Pompey (Woody Strode), ser visto, ao mesmo tempo que Stoddard mas acertando no alvo. Tom não o revela a ninguém, lamentando-se por ter chegado demasiado tarde, até, por amor de Hallie, que já perdera definitivamente para Stoddard, contar a este como tudo se passou, para que ele possa prosseguir a sua carreira política sem o peso na consciência de ter morto um homem, algo de incompatível com a figura de um impecável representante da civilização. You talk too much, think too much. Besides, you didn’t kill Liberty Valance. Quem o matara fora ele. Cold-blooded murder. But I can live with it. Hallie’s happy, diz o terrível rosto de Wayne,

Fernando Gil, nesse grande livro de filosofia que é A convicção, distingue dois conceitos: fundação e fundamento. A fundação é o movimento que instaura uma nova ordem, em política, no conhecimento e noutros domínios. O fundamento é a versão petrificada, mítica, do gesto fundador, que no essencial o recalca e oculta. Em O homem que matou Liberty Valance temos um perfeito exemplo disso. A fundação da sociedade ordeira não teve, ao contrário do que todos pensam, origem no exemplar representante da lei. A fundação, representada pela morte do pistoleiro Liberty Valance, deu-se pela acção de Tom Doniphon, o homem que não se interessava por projectos políticos, mas apenas por um projecto pessoal: casar com Hallie. O verdadeiro herói fundador permaneceu desconhecido. Em sua substituição ficou a lenda, transformada em fundamento da civilização ordeira. Nada é bom demais para o homem que matou Liberty Valance, diz o empregado de comboio a Stoddard, no fim do filme.

É verdade que Stoddard conta a verdadeira história aos jornalistas. Mas a célebre reposta do director do jornal, recusando publicar essa parte do relato (This is the West, Sir. When the legend becomes fact, print the legend), deixa-o, no fundo, satisfeito. A libertação obtida pela revelação da verdade conjuga-se com a satisfação de saber que ela permanecerá secreta e não noticiada. É de resto duvidoso que a sua mulher, Halley, saiba verdadeiramente o que se passou realmente, o passado escondido dentro do passado. A fundação continuará ocultada pelo fundamento. Tom Doniphon, esquecido de quase todos, deverá assim continuar. E essa ocultação é provavelmente necessária para a criação da comunidade política legal e democrática – é o que o filme parece indicar.

Mas, subterraneamente a essa ficção, permanecem o deserto e as rosas do cacto que Hallie deposita sobre o caixão de Wayne. A civilização das “rosas reais”, do jardim em que Shinbone se tornou, não apaga nunca completamente o mais profundo. “O deserto é o mesmo”, diz o antigo xerife Link a Hallie. Hallie sabe-o e Stoddard provavelmente suspeita-o, como suspeita que o verdadeiro amor de Hallie era Tom, o sacrificado da civilização. Todos nós, se nos atrevermos a viajar um pouco fora dos costumes bem-pensantes, o suspeitamos.

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