Quando já foi tudo dito e faltam apenas dois dias para o debate no Parlamento, faz sentido um back to basics para sublinhar apenas e só aquilo que é próprio do ser humano: fazer tudo o que estiver ao seu alcance para permanecer vivo. E para ajudar outros a não morrerem.

O instinto de sobrevivência é inato e é universal. Não existem seres humanos desprovidos de instinto de sobrevivência.

Assistimos há poucos dias a um salvamento no mar da Nazaré e vimos como dezenas de homens fizeram tudo para salvar a vida de Alex Botelho, o surfista de ondas gigantes atingido pela colossal massa de água contida numa onda de 20 metros. Mesmo quando não tinham certezas nenhumas sobre a probabilidade de ele resistir ao impacto e consequente afogamento, lançaram-se à água e não desistiram de o salvar.

Para resgatar as vidas de outros, muitos arriscam as suas próprias vidas. Sempre assim foi e assim continuará a ser até ao fim dos tempos.

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Tomando como exemplos apenas casos mediáticos, podemos recuar no tempo e voltar à caverna onde 12 rapazes tailandeses ficaram presos durante dias e noites a fio. Durante duas semanas os melhores especialistas do mundo mobilizaram-se para os retirar da gruta e, graças ao facto de ninguém ter desvalorizado a vida de cada um dos rapazes, todos foram salvos.

Tão impressionante como terem sido todos resgatados vivos, foi o espírito com que os mergulhadores se dispuseram a atravessar as águas e a explorar as grutas, mesmo sabendo que eles próprios poderiam não voltar. Um deles morreu e a sua morte sublinhou ainda mais o valor atribuído à vida de cada um dos rapazes e do seu treinador.

O instinto de sobrevivência permitiu a estes jovens permanecer unidos e protegerem-se mutuamente do frio, da fome e do medo. A lógica ‘todos por todos’ funcionou em todo o seu esplendor entre os que sobreviveram dentro da caverna, mas também nos que se voluntariaram para os resgatar.

Todos eles poderiam ter sido deixados à sua sorte, pois o perigo de alguém morrer a tentar alcançá-los era real. Ninguém desistiu, nem depois da morte de um dos mergulhadores, e mais uma vez o instinto de sobrevivência e o instinto para salvar prevaleceu dentro e fora da gruta. E os rapazes foram devolvidos às famílias e terão para contar aos seus filhos e aos filhos dos seus filhos que ninguém desistiu deles nem os deixou morrer.

O treinador tailandês falou, depois, do pavor que todos sentiram e das horas de grande desânimo e inclinação à desistência que cada um experimentou, mas também partilhou as estratégias que usou para não deixar desistir e para manter os rapazes unidos e firmes no propósito de se ajudarem mutuamente. E nenhum se perdeu naquele terrível e gelado labirinto de lama e escuridão, habitado por morcegos e outras criaturas igualmente ameaçadoras.

Também os 33 mineiros chilenos que há 10 anos ficaram mais de 2 meses soterrados na mina San José (o primeiro desabamento de terras deu-se a 5 de Agosto e só a 14 de Outubro é que o último mineiro voltou à superfície) são outro exemplo de mobilização humana que expôs ao mundo o mais básico de todos os instintos.

Nas primeiras duas semanas ninguém sabia sequer se estavam vivos ou mortos, pois não havia qualquer contacto entre eles e as equipas que tentavam o salvamento. Soterrados e certamente aterrados, nenhum desistiu de viver. Muito pelo contrário, todos fizeram tudo o que estava ao seu alcance para sobreviver e ajudar os outros a não desistir.

Depois de muitos dias e noites dramaticamente vividos na escuridão da mina, sem certezas nenhumas sobre o seu futuro, foi possível localizá-los e começar a alimentá-los através de longas ‘palhinhas’. Esses tubos de borracha também serviram para estabelecer a comunicação entre os mineiros e as suas famílias. E as cenas que foram imortalizadas em “Os 33” nunca mais sairão da cabeça de quem viu o filme e, muito menos, de quem assistiu em direto ao que foi acontecendo dia após dia.

Mulheres e crianças, mas também velhos pais dos filhos soterrados deitavam-se na terra para escutarem as vozes remotas dos seus familiares, que lhes chegavam através dos longos tubinhos de borracha, e falavam com eles através dessas ‘palhinhas’, fazendo com que a sua voz chegasse até aos homens de forma a dar-lhes confiança e a devolver-lhes a esperança. Todos os homens foram resgatados com vida, mas confessaram que começaram a sentir-se verdadeiramente salvos a partir do momento em que perceberam que ninguém iria desistir deles.

Os exemplos são incontáveis em situações de catástrofes naturais, acidentes de toda a espécie, guerras e conflitos, mas também nos casos de doenças graves, crónicas e irreversíveis, assim como nos desastres mais inesperados que a vida pode trazer às famílias ou a pessoas individuais, como uma criança cujos ossos ficam todos estilhaçados por ter sido projetada de uma cadeira mal aparafusada de um carrocel mais alto e mais veloz que uma montanha russa, ou um jovem que fica preso no fundo das rochas escarpadas da Boca do Inferno ou, ainda, uma mulher já de idade que é atropelada numa passadeira das avenidas novas, em Lisboa, e é deixada sozinha, literalmente esmagada, porque o condutor fugiu a toda a velocidade.

Falo de casos reais, que conheço, e se refiro genericamente estes casos sem entrar em detalhes (cada um daria um livro inteiro, acreditem) é porque as sequelas foram terríveis para cada um, e a todos a morte a pedido poderia ter parecido melhor solução do que continuar a viver um calvário diário, a penar e a pesar aos outros. Nos três casos que refiro, da criança que entretanto cresceu e se converteu num adulto e a quem os ossos continuam a doer muito, do rapaz miraculosamente resgatado do fundo da Boca do Inferno e no involuntário atropelamento que acabou por se converter num hediondo crime, posso garantir que a todos apeteceu morrer, mas em todos prevaleceu o instinto de sobrevivência. E todos se sentiram tocados e mais esperançados pelo impulso de salvar que tiveram todos os que os salvaram e cuidaram.

Todos os dias se sucedem situações dramáticas, aparentemente terminais, e é fabuloso ver como tantas vidas se salvam porque alguém não desiste nem deixa desistir. Posso ainda acrescentar a estes três casos um outro, de um jovem que foi confrontado com um diagnóstico de E.L.A., mas continua vertical na sua cadeira de rodas, sabendo que tudo piora de ano para ano. E já lá vão mais de 10 anos, e o sorriso revela a sua vontade de viver, embora saiba (porque sente) que as dificuldades são crescentes.

Apetecer morrer e pedir ajuda para deixar de viver pode-nos acontecer a todos. Ninguém é imune à tentação da desistência. Acontece na escuridão mais terrível, na prisão mais cruel, no desespero mais profundo, no acidente mais inverosímil, na mais dramática fuga por terra ou por mar, na doença mais invencível, na depressão mais persistente, mas é precisamente quando tudo parece perdido e sem salvação, é exatamente quando a vida parece invivível que não podemos concordar à primeira que realmente a vida não vale a pena.

É aí que que o impulso de salvar tem que ser ativado de forma a encontrar alternativas que eliminem ou minimizem a dor e os sofrimentos. É nessas alturas que cuidar, dar alento e esperança, bem como restaurar ou reforçar a confiança, exige de nós o nosso melhor. Exige muito, mas compensa muitíssimo.

O impulso de salvar os miúdos tailandeses ou os mineiros chilenos é exatamente o mesmo que todos esperamos sentir nos outros quando um dia for a nossa vez de sofrer ou perder o sentido de vida. Ninguém disse a estes nem aos outros o que dizem profissionais da morte como o já tristemente célebre François Damas, médico belga entrevistado pelo Expresso, que aparentemente precisa apenas de 20’ para atender os seus doentes e concordar com eles que a sua vida (a deles, leia-se) não merece a pena ser vivida.

Li a entrevista e todo o texto, clara e escrupulosamente escrito, e dei comigo a pensar: ainda bem que as equipas de salvamento e resgate em grandes catástrofes e pequenos ou grandes acidentes nacionais e internacionais nunca foram lideradas por homens como François Damas. Até hoje nunca foram, mas em Portugal tudo pode mudar já depois de amanhã.